Oliva com nova mostra de Arte Bruta sobre rivais, clausura, armas e outras violências

O Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory inaugura, sábado, em São João da Madeira, uma mostra de Arte Bruta que, reunindo obras dessa e outras instituições europeias, revela "Histórias de Violência" por 56 autores de 20 países.

A exposição tem curadoria de Gustavo Giacosa, ator e encenador argentino que se afirmou em Itália e França como especialista na interpretação das artes visuais mais marginais e no seu cruzamento com a arte contemporânea e as artes performativas, desenvolvendo ainda investigação regular sobre a relação entre Arte e loucura.

"A exposição 'Histórias de Violência' aborda a questão da destrutividade própria do ser humano e revela como o artista sabe encontrar instintivamente a força de se reconstruir e desenvolver apesar das adversidades", declara Gustavo Giacosa à Lusa.

Assim, o curador explica que "as obras escolhidas falam de diversas manifestações de violência, escolhendo um contraponto evocativo próximo da poesia, da imaginação e às vezes do humor, cruzando assim a Arte Bruta com a Arte Contemporânea".

Na prática, essa abordagem ficará patente em trabalhos retirados à Coleção Treger e Saint Silvestre, cujo fundo de Arte Bruta está confiado à Oliva Creative Factory, e complementar-se-á com obras cedidas a título de empréstimo pela Galeria Christian Berst (França), pela Coleção La "S" Grand Atelier (Bélgica), pela Coleção Ferraiuolo e Giacosa (França) e pela Coleção Norlinda e José Lima (também com sede na Oliva).

Gustavo Giacosa realça que esta será a primeira vez que o Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory trabalha em parceria com outros centros de arte para conceção de uma exposição própria e refere que daí resulta uma mostra em que autores clássicos da Arte Bruta como Henry Darger (1892-1973) e Friedrich Schröder-Sonnenstern (1892-1982) se apresentam ao público juntamente com referências da Arte Contemporânea como Robert Combas (1957) e Gonçalo Mabunda (1975).

Até 14 de outubro, obras de uns e outros serão assim distribuídas por sete núcleos temáticos que o curador da exposição encara como diferentes manifestações de violência: as pulsões, as rivalidades, a clausura, as armas, as batalhas, as vítimas e as transformações.

O núcleo da clausura, por exemplo, procura dar a conhecer a arte concebida em situações de confinamento como aquela a que foi sujeito o russo Foma Jaremtschuk (1907-1986), que nos anos 1930 foi obrigado a trabalhos forçados num campo de concentração siberiano e nos anos 40 internado compulsivamente num hospital psiquiátrico, sempre como forma de repressão política por parte das forças soviéticas.

Já quanto às narrativas sobre rivais, um caso emblemático é o do americano Henry Darger, que, tendo ficado órfão ainda na infância, cresceu em diferentes orfanatos e mais tarde viria a retirar dessa experiência a inspiração para uma epopeia ilustrada de 15.145 páginas - que, intitulada "A história das meninas Vivian", foi descoberta apenas no final da sua vida e relata o eterno combate entre o Bem e o Mal.

Referência da secção sobre vítimas é o pintor italiano Giovanni Bosco (1948), que começou por ser pastor, trabalhou nas pedreiras de mármore e, após ter sido preso pelo furto de ovelhas, encontrou novo emprego no bar em que viria a descobrir que dois dos seus irmãos tinham sido mortos ao roubar um carro. Em depressão profunda, foi então internado numa instituição psiquiátrica e aí sujeito a choques elétricos, o que mais tarde lhe motivaria desenhos e pinturas em que um coração despedaçado é tema recorrente.

Já a alemã Rosemarie Koczy (1939-2007) integra depois o núcleo sobre transformação: foi perseguida pelos nazis, deportada para campos de concentração em Dachau e Ottenhausen e, após o final da guerra, acabaria por ficar ao cuidado de um orfanato.

Mais tarde aprendeu tecelagem, tornou-se uma referência internacional em tapeçaria e criou escolas comunitárias na Suíça e nos Estados Unidos, após o que se dedicou ao desenho, para registar as memórias do Holocausto com maior rigor do que o permitido pelos têxteis. Hoje as suas obras integram coleções como a do Museu Guggenheim de Nova Iorque e a do Museu Memorial do Holocausto de Israel.

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Nos últimos cinco anos o panorama político espanhol alterou-se profundamente, fazendo dele uma espécie de súmula dos movimentos de transformação política que ocorrem no mundo ocidental. Olhar para Espanha é um exercício relevante para entender o que pode suceder aqui.O fim do bipartidarismo Quando, em 2011, o PP ganhou as eleições, tudo estava em ordem. Desde 1996 que os espanhóis viviam em alternância. Era agora a vez do PP. O que Rajoy não sabia é que o bipartidarismo morria: em 2015, o PP perdeu a maioria, o PSOE perdeu votos, e irromperam o Podemos e o Ciudadanos. O desarranjo foi tal que ninguém se entendeu. As eleições repetiram-se: o PP pouco cresceu, o Podemos não superou o PSOE, o Ciudadanos desceu e o PSOE teve o seu pior resultado; o bipartidarismo, esse, não regressou. Rajoy lá formou um governo que, pouco depois, caiu numa moção de censura. Agora, sem eleições, o PSOE governa de forma ainda mais minoritária. Quando se tornou evidente que o sistema tinha quatro partidos nacionais, as eleições andaluzas revelaram a irrupção de um antes moribundo Vox, um partido que apela a temas rotulados como de extrema-direita, e que as sondagens já veem no Parlamento nacional. Passarão a ser cinco? Como é que em poucos anos tudo mudou? Penso que há quatro fatores que ajudam a explicar esta transformação.A crise de 2008 Fundado a partir do movimento dos indignados (que liderou as manifestações contra os efeitos da crise), o Podemos concorreu às europeias de 2014 e teve 8%. Em 2015, nas legislativas, teve 20%. Nunca a esquerda anticapitalista, antissistema, adepta da democracia direta, tinha tido tanto voto. Mas enquanto o PSOE era a cara da crise e o PP aplicava a austeridade, Iglesias tinha tudo a favor: outsider, fora de casos de corrupção, podia prometer, dominava as redes sociais e não saía da televisão. Era o tempo em que o Podemos sonhava com o sorpasso. Parecia imparável. E é normal. Em tempos de crise, de desespero, não é possível exigir às pessoas que não cedam a discursos fáceis: as pessoas querem autenticidade e política - o economês deixa de relevar e as caras antigas soam a passado. Entretanto, o Podemos foi perdendo votos e vigor à medida que se foi revelando. O seu n.º 3 empregava precários, o seu n.º 2 recebia dinheiro da Venezuela, e Iglesias comprou casa de milionário, exigiu a tutela dos serviços secretos e ainda nesta semana pediu desculpa por coisas que disse há anos. O Podemos continua relevantíssimo, mas ninguém o imagina imparável. Não colhe a tese de que temos de nos converter ao populismo para ganhar. O maior inimigo do populismo é o tempo. Mas não podemos confiar apenas no tempo ou achar que o populismo surge inevitável em determinados contextos: o populismo tem de ser combatido diariamente. Porque o Podemos esteve quase lá.Uma corrupção entranhada Nem PSOE nem PP têm bom registo em matéria de corrupção. Mas durante a governação de Rajoy a sucessão de casos envolvendo o PP foi tal que o partido passou mais tempo a explicar-se do que a apresentar os resultados da economia. Foi um vendaval. O filão era bom demais. A cada caso, lá vinham Iglesias e Rivera falar de ética, apresentando o seu bom cadastro. O PSOE bem tentou, mas tanto vidro no telhado não ajudou. A corrupção entranhada, sistémica, é hoje mortal: expulsa os eleitores, empurrando-os para quem souber assumir a renovação, independentemente das suas ideias. Já não dá para esperar que passe. Tem de se agir depressa, e isso nem sempre é fácil, até perante o risco de judicialização da política. Um sistema político, por mais estável que seja, pode hoje ser transformado de alto a baixo por causa de um caso de corrupção. Uma má decisão judicial, uma errada avaliação administrativa, um qualquer caso que há anos passaria incólume, podem ser o gatilho de um movimento imparável, agregando o descontentamento. É bom que se tenha noção disso. Em 2011, o PP parecia destinado a governar oito anos sem problemas. Hoje, todas as figuras de 2011 estão na sombra. Uns presos, outros demitidos, outros no meio de escândalos. E nenhum partido é imune a casos destes - a diferença está na forma como se reage a eles.A reação ao independentismo O Ciudadanos nasceu na Catalunha em 2006, com um discurso contra o independentismo tão vigoroso que dirigentes nacionais do PP o elogiavam. Conseguiram dar o salto nacional em 2015, quando a questão catalã se tornou nacional graças às ameaças do governo autónomo, que preparava aventuras referendárias e provocações várias, muitas xenófobas. Para a maioria dos espanhóis, que é soberanista, o independentismo é uma ameaça ao seu mundo, ao seu modo de vida. A tibieza de Rajoy a lidar com os independentistas e de Sánchez a demarcar-se deles tornaram o Ciudadanos uma opção: ganhou as eleições na Catalunha e foi, além do soberanista Vox, o único a crescer na Andaluzia; a nível nacional, ficaram em quarto, atrás do Podemos, mas as sondagens mostram-no a crescer consistentemente. O tempo é um bom aliado. Rivera nunca precisou de ser extremista, o que é resposta aos que dizem que só os extremismos podem crescer. E percebeu que em questões políticas - o independentismo e a corrupção - as pessoas querem respostas políticas. Os bons resultados da governação não chegam para animar. É aliás visível que o novo líder do PP já percebeu isso, e ainda bem. Do que as pessoas precisam, num momento em que o seu mundo é colocado em causa, é de assertividade e de liderança política, e para isso não é preciso lunatismo. Mudança sensata era um dos slogans de Rivera. Não se deu mal com a afirmação da sensatez.A indignação com a influência dos radicais O atual governo do PSOE converteu-se numa normalização de partidos pró-ETA, de independentistas e de extrema-esquerda. Têm hoje um papel político e mediático mais central do que nunca. É impossível não esperar indignação, uma contrarresposta, não só dos moderados mas também de outros radicais que, nessa normalização, encontram legitimidade. Essa normalização começou antes de Sánchez. O Podemos conseguiu um relevo mediático ímpar desde a fundação, passeando-se pelo espaço público com uma superioridade moral inaceitável num simpatizante de ditaduras e ternurento com terroristas. O PSOE não soube o que fazer, temendo a pasokização: aproximar-se podia ser fatal, distanciar-se podia ser amuo. O PP ignorou-lhes o magnetismo, confiando que os resultados da economia bastavam. Deixaram-no a sós na arena. Foi um erro colossal. Por um lado, porque foi enganando muita gente, com o jeito manso que esconde o fanatismo. Por outro, porque o eleitorado moderado, atacado, acusado, caricaturado, por um Iglesias cada vez mais cheio de si e ofensivo, sentiu-se órfão. E quando os moderados se sentem órfãos, quando os seus partidos parecem não reagir, podem bem encontrar espaço noutros radicais. A relativização de um extremo é um erro que se paga caro, uma espécie de convite ao extremo oposto. A irrupção do Vox explica-se assim. E, sem o Ciudadanos, o Vox, que já existia, teria irrompido mais cedo.Portugal Não podemos extrapolar estes fatores diretamente para Portugal, mas eles podem ajudar a detetar tensões e movimentações, assim como podem servir de aviso ou guia de reação. Não penso que estejamos imunes a fenómenos destes. Há populismo de esquerda em Portugal, tão aceite e entranhado que há quem só esteja à espera de um gatilho para reagir. Mas sobre Portugal terei tempo de escrever noutra oportunidade.

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Crónica de Televisão

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É uma inevitabilidade clínica. Por muitos cuidados que tenha com a saúde, por mais que procure fazer exercício ou manter dieta equilibrada, há um risco a que qualquer televisão está sujeita: a estreia de um novo drama passado num hospital. Resistindo a todos os esforços para a erradicar, a "série sobre médicos" continua a florescer, irrompendo em surtos pontuais, tão ou mais comuns e incontroláveis do que os surtos das suas congéneres etiológicas, a "série sobre advogados" e a "série sobre polícias".