"A qualidade do capital humano é fundamental para o futuro do país. Portugal não deve ficar preso à concorrência baseada em baixos salários", disse à agência Lusa Aurelio Parisotto, economista da OIT que coordenou um estudo sobre Portugal que vai ser apresentado na terça-feira, em Lisboa..O economista considerou que, para os portugueses terem de facto empregos dignos, será necessário combinar políticas macroeconómicas pró-emprego e políticas laborais "bem projetadas e monitorizadas" que ajudem "a abrir um círculo virtuoso de investimentos mais altos, com retornos mais altos e empregos dignos e produtivos"..Para que tal aconteça, "será importante manter o atual dinamismo do crescimento económico, evitando apressar uma consolidação orçamental prematura", acrescentou..Segundo Parisotto, também será importante "fortalecer o ritmo de crescimento futuro por meio de esforços direcionados à promoção de investimento, inovação, progresso tecnológico e desenvolvimento de capacidades"..O economista defendeu ainda a necessidade de serem adotadas medidas específicas que ajudem a colmatar "lacunas e vulnerabilidades" do mercado de trabalho que atingem determinados grupos, como "os jovens, os desempregados de longa duração e os que trabalham em regime temporário e precário"..Aurelio Parisotto lembrou que, nos últimos anos, Portugal tem vivido "uma recuperação económica sólida, impulsionada por fortes exportações, reestruturação de empresas e bancos e mudança de política em relação à austeridade".."Portugal está agora a crescer a um ritmo ligeiramente superior à média da UE. Os efeitos positivos no mercado de trabalho são cada vez mais visíveis. O desemprego e o subemprego estão a diminuir significativamente [...] e há menos pessoas a ir para o estrangeiro em busca de oportunidades", disse em entrevista à agência Lusa..Referiu ainda que se verificaram "melhorias na qualidade dos empregos" criados e que "a percentagem de trabalhadores temporários -- aqueles que estão em maior risco de precariedade -- está agora mais ou menos nos mesmos níveis de 2008".."Mas pode ser feito mais para garantir que todos os empregos em Portugal são dignos. Para muitas mulheres e homens jovens, a transição para um emprego estável ainda é difícil. Mas parece-nos que o país está no caminho certo", considerou..O economista salientou ainda a importância do diálogo social, neste processo, como forma de compromisso dos principais atores para que as mudanças políticas sejam efetivamente implementadas.."Pensamos que a tradição e a prática do diálogo social em Portugal favoreceram a adoção de um conjunto de medidas que facilitaram a recuperação económica e do mercado de trabalho que o país atravessa atualmente", disse..Referiu ainda as vantagens da negociação coletiva para o desenvolvimento e estabilidade do país.."A negociação entre organizações independentes e representativas de empregadores e trabalhadores é uma instituição bem testada para garantir que os ganhos de crescimento sejam compartilhados de forma justa e que os salários cresçam em linha com a produtividade. Por este motivo, ajuda um país a manter um caminho de desenvolvimento positivo e estável a longo prazo", considerou..Aurelio Parisotto reconheceu que em Portugal, durante a crise, a negociação coletiva enfrentou muitos obstáculos e alguns dos problemas ainda não foram resolvidos. .Lembrou, a propósito, que "a extensão do acordo coletivo tem sido fundamental para reduzir a desigualdade salarial e promover a inclusão" e disse que a sua manutenção é sugerida no relatório que vai ser apresentado em Lisboa. .A OIT promove na terça-feira na capital portuguesa uma conferência onde será lançado o estudo "Trabalho Digno em Portugal 2008-18: da crise à recuperação", coordenado por Aurelio Parisotto..O conceito de trabalho ou emprego digno foi lançado pela OIT há vários anos, como um dos temas a concretizar em todo o mundo..A OIT defende que todos têm direito a um trabalho digno, com direitos, proteção social e diálogo social. Este tipo de emprego promove a inclusão social e a paz social e favorece o crescimento económico.