Na Europa deixou de existir a ilusão de um superestado federal -- Carlos Gaspar

O investigador Carlos Gaspar disse hoje que a Europa constitui um "equilíbrio de desequilíbrios" onde deixou de existir a ilusão de um superstado federal, durante a apresentação do seu livro "A Balança da Europa".
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"O equilíbrio da Europa é um equilíbrio de desequilíbrios. É um equilíbrio entre a Alemanha, França e Inglaterra, que tem assumido formas diferentes desde a II Guerra Mundial, que identificamos espontaneamente com os dois pilares da ordem multilateral europeia, a União Europeia (UE) e a Aliança Atlântica", assinalou à Lusa o investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI).

O mais recente trabalho de Carlos Gaspar, com 166 páginas, edição da Aletheia e apresentado no final desta tarde na sala de conferências do edifício Jean Monnet (a representação da Comissão Europeia em Lisboa), ensaia a forma como a Europa se tem definido a partir de 1945 até à última crise, que ainda decorre, num contexto de "crise existencial" onde pode estar em causa a sua própria continuidade.

Assim, é no quadro institucional da UE e da NATO que têm sido regulados os equilíbrios entre as três principais potências europeias (Alemanha, França e Reino Unido), é será quadro que se podem "concertar e harmonizar as políticas" e mesmo com a perspetiva do 'Brexit', um processo ainda com muitas indefinições.

O balanço do trajeto europeu comunitário também significa para o investigador o fim das ilusões, que constitui o último capítulo desse ensaio.

"O fim das ilusões tem a ver com as ilusões de que é possível ultrapassar a natureza da UE como uma união de Estados soberanos para criar uma espécie de superestado europeu, um Estado federal europeu", assinalou, acrescentando que "essa ilusão existiu com força, nomeadamente depois do fim da Guerra Fria, mas é uma ilusão", pois "a natureza da UE, como a natureza das comunidades europeias, é ser uma união de Estados".

O autor recorda que a UE foi erguida para "resolver a questão da Alemanha" no pós-1945 e para "impedir que voltasse a ter vontade de hegemonizar" mas também com outro objetivo: integrar o conjunto dos pequenos Estados europeus numa instituição multilateral "onde todos pudessem ter lugar". Um espaço que surgiu com a então Comunidade Económica Europeia (CEE, UE desde 1993) e com a Aliança Atlântica.

A integração nestas duas instituições multilaterais dos "pequenos Estados" correspondeu à necessidade de promover maior estabilidade no velho continente, traumatizado por dois brutais conflitos mundiais, defendeu.

Numa referência às alegadas veleidades de Berlim em voltar a hegemonizar o espaço europeu, Carlos Gaspar reforçou a sua abordagem: "A tendência de hegemonização por parte da Alemanha é anticonstitucional. A UE existe para a Alemanha não ser a potência hegemónica na Europa ocidental".

A relação da Europa fora do seu espaço comunitário, em particular com a Rússia, China e com os Estados Unidos -- uma aliança "que se mantem intacta embora esteja numa fase depressiva, num distanciamento relativo" --, constituem outro objeto de análise de "A Balança da Europa".

"Os Estados europeus devem fazer um esforço para se aproximarem das democracias asiáticas que têm o mesmo problema que as democracias europeias: defender a ordem liberal internacional, defender o modelo multilateral de ordenamento internacional e neste intervalo não podem contar com os EUA e têm de contar com os piores instintos das novas grandes potências", defendeu, numa alusão às relações dos Estados-membros da União com Moscovo e Pequim.

A abordagem da UE face à Rússia também se tem caracterizado por uma posição de alguma firmeza devido aos acontecimentos na Ucrânia a partir de 2014, após o derrube do antigo Presidente Viktor Ianukovich, comiserado próximo de Moscovo.

"As sanções da UE à Rússia resultam de um ato inaceitável da Rússia, a anexação da Crimeia e a violação da integridade territorial da Ucrânia. É a primeira vez desde 1945 que há uma anexação territorial pela força na Europa", recordou.

A apresentação do livro, numa sala repleta e onde também compareceu o ex-Presidente da República Jorge Sampaio, esteve a cargo de Nuno Severiano Teixeira, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa e diretor do IPRI, que se referiu a um livro "na melhor tradição das relações internacionais".

Numa referência ao autor, e em declarações à Lusa, definiu-o como "um "realista que aborda com precisão o lugar da Europa neste contexto global.

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