Mostra em Lisboa sobre rainha D. Maria II abre comemorações do bicentenário

A exposição "Dona Maria da Glória (1819 -1853): um registo intimista", que é inaugurada na segunda-feira, na Torre do Tombo, em Lisboa, abre o programa de comemorações do bicentenário do nascimento da rainha D. Maria II.

A exposição, patente até 06 de abril, apresenta documentos do cartório da Casa Real, "nomeadamente alguma da correspondência trocada no seio familiar desta jovem princesa que tendo nascido no Brasil veio a ser a rainha de Portugal", segundo comunicado do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT).

A exposição é "um pretexto para o ANTT evidenciar a documentação do cartório da Casa Real, constituído por 64 livros e 250 caixas de documentos, que se encontrava na casa forte do Palácio das Necessidades, em Lisboa, e no Ministério da Justiça/Direção-Geral da Justiça, para onde tinham sido transferidos do Palácio da Pena, em Sintra, em 1912", segundo o ANTT.

Esta documentação, de 1821 a 1910, "fornece informação importante para a história política, militar e cultural portuguesa, bem como para a história da vida privada da família real", nomeadamente a correspondência entre os diversos membros da família real portuguesa e as congéneres estrangeiras e, ainda, com individualidades da cena política, militar, cultural e eclesiástica nacional e internacional.

D. Maria II, filha de D. Pedro IV, que proclamou a independência do Brasil e se tornou o seu primeiro imperador, assumiu o trono português em 1826, tendo sido deposta dois anos depois, pelo tio, o infante D. Miguel, que se proclamou rei absoluto.

Após um período de guerra civil, entre liberais, que apoiavam as pretensões de D. Maria II, e os legitimistas, que apoiavam as de D. Miguel, venceram os primeiros, e D. Maria II reassumiu o trono em 1834, tendo reinado até 1853.

Neste lote documental encontram-se outro tipo de documentos, como ementas, programas de espetáculos musicais e outros eventos culturais, telegramas, postais, fotografias, autos de nascimento, títulos de partilha, desenhos e esboços, assim como apontamentos pessoais, petições e papel de carta em branco.

No primeiro núcleo apresentam-se algumas das cartas escritas por D. Pedro IV, "envolvido nas lutas pela causa liberal e que ilustram a enorme ternura e preocupações próprias de um pai que à distância procura acompanhar o crescimento e a educação desta filha destinada a um papel tão especial, incutindo-lhe os valores liberais, aconselhando-a a aplicar-se nos estudos, admoestando-a quando considera que tal não está a acontecer", segundo o ANTT.

Num segundo núcleo mostram-se as cartas trocadas com o seu segundo marido, D. Fernando II, "umas num registo mais intimista e familiar, outras num registo mais formal e institucional, uma vez que o rei exerceu o cargo de Comandante em Chefe do Exército".

Deste núcleo fazem também parte bilhetes e cartas enviados de Mafra, sobre os filhos ainda crianças, "dando conta ou da papeira que afetara um ou da queda de um dente que acontecera a outro, das saudades sentidas - havendo uma carta com um raminho de flores enviado à mãe pelo infante D. João -, ou de uma pequena horta que cultivavam".

O terceiro núcleo é dedicado à correspondência no âmbito da governação, "com personalidades que marcaram os acontecimentos politicamente agitados da época", com o duque de Palmela, que presidiu ao primeiro Governo da rainha.

De nome completo Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, nascida no Rio de Janeiro, contava sete anos, quando o seu pai, D. Pedro IV, abdicou do trono de Portugal a seu favor, em abril de 1826.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.