Mais de 500 pessoas assinaram petição contra "instrumentalização da história da emigração"

Mais de 500 pessoas já assinaram uma petição contra a "instrumentalização da história da emigração" portuguesa para França, na qual se denuncia a utilização da imagem do português como "o bom imigrante" contra, por exemplo, imigrantes africanos.

O texto, escrito pelo historiador Victor Pereira e pelo jornalista Hugo dos Santos, retoma a tribuna publicada na página internet do jornal Le Monde, a 9 de janeiro, que lamentava "a distorção da história dos portugueses, da emigração portuguesa e, mais particularmente, do 'bidonville' de Champigny", explicou à Lusa o historiador.

O abaixo-assinado está disponível na plataforma online Change.fr e o objetivo é "fazer circular o texto" e dar oportunidade a que "mais pessoas o apoiem", depois de a carta-aberta no Le Monde ter sido subscrita por 49 pessoas, nomeadamente especialistas da emigração portuguesa para França, sociólogos, realizadores e professores universitários.

"É muito provável que outro comentador, outro jornalista, outro homem político faça a mesma oposição entre os 'bons portugueses' e os 'maus imigrantes africanos ou magrebinos'. É importante que o texto circule para que se isso acontecer de novo, as pessoas tenham argumentos para dizer que não é bem assim, que essa manipulação já é usada há muito tempo e para o poder rebater", continuou o historiador.

O texto no Le Monde surgiu em resposta às declarações de dois jornalistas e de um académico franceses que defenderam, na imprensa gaulesa, que não havia violência no tempo dos bairros de lata portugueses de Champigny-sur-Marne, numa comparação com os violentos incidentes ocorridos naquele local na noite de fim de ano.

"A história da imigração portuguesa é pouca falada no debate público e, neste caso, foi mal falada e utilizada para estigmatizar outras populações. Isto é, compararam os 'bons portugueses' - que apesar de terem vivido em condições muito difíceis nunca se revoltaram, o que é falso - para depois apontarem o dedo a outras populações, nomeadamente, os franceses de origem magrebina e africana", lamentou Victor Pereira.

O texto recorda os trabalhos do sociólogo Albano Cordeiro estudaram, nos anos 1980, referindo "a dinâmica social que consistia em tornar invisível a imigração portuguesa para ampliar a rejeição dos imigrantes magrebinos".

"Ou seja, quanto mais os 'árabes' se tornavam indesejáveis, mais os portugueses se tornavam invisíveis e, por isso, 'integrados'. Estas imigrações estão ligadas desde sempre como duas faces da mesma moeda e unidas pelo mesmo desprezo expresso por uma parte da sociedade de acolhimento", continuam.

Por outro lado, o documento indica que "as afirmações sobre o bairro de lata português de Champigny-sur-Marne são pura e simplesmente falsas e não verificadas" porque havia uma "violência simbólica e arbitrária" a que eram submetidos os portugueses, com medo permanente de serem denunciados à PIDE [polícia política do antigo regime] e com medo de serem realojados e afastados dos seus próximos.

O texto indica, também, que "contrariamente à imagem asséptica que se cola aos portugueses, as autoridades temiam as suas reações" e que "os trabalhadores portugueses também sofreram a rejeição de certos vizinhos que se queixavam destes estrangeiros e exigiam a intervenção das forças da ordem".

"A clandestinidade, a exploração, os bairros de lata, o racismo: vivemos todas estas experiências como as vivem - a níveis ainda mais intensos - os imigrantes africanos de ontem e de hoje", continua o documento, que recorda "episódios de revolta e de combate" como o de Lorette Fonseca, uma imigrante portuguesa que militou pela alfabetização do bairro de lata de Massy e que foi ameaçada de expulsão.

Na conclusão, o texto insiste que se opõe "publicamente à instrumentalização" da história e da memória da emigração portuguesa para França "que também fazem parte da história de França".

"Estas manipulações querem reforçar o racismo que atinge hoje algumas populações estigmatizadas, da figura do 'muçulmano' à do 'Rom'", conclui o documento.

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