Livraria Miguel de Carvalho, em Coimbra, fecha portas no final do mês

A livraria Miguel de Carvalho, situada perto da Praça do Comércio, na Baixa de Coimbra, vai encerrar portas no final do mês por falta de clientes, informou o livreiro, criticando a "desertificação total" do centro histórico da cidade.

Miguel de Carvalho, livreiro desde 1994, mudou-se para o Adro de Baixo, perto da Praça do Comércio, em 2001, tendo agora anunciado o encerramento do espaço, passando a atuar no 'site' da sua livraria (www.livro-antigo.com) e em feiras do livro, anunciou, na sua página de Facebook, na quinta-feira.

A livraria, especializada no modernismo e surrealismo português, era espaço de exposições, apresentações de livros, tertúlias, leituras de poesia e outros eventos culturais.

"A decisão já foi tomada há uns meses, mas não tive a coragem de a pôr em prática, na esperança de que estaria a tomar um passo em falso, a precipitar-me. Mas não conseguia mais aguentar a desertificação total da Baixa de Coimbra", disse à agência Lusa Miguel de Carvalho.

Segundo o livreiro, "todos os dias fecham casas comerciais" na Baixa de Coimbra e o seu espaço "é mais um, não é diferente dos outros".

"Casei com uma senhora chamada Cultura, em Coimbra, durante 20 anos, mas um cancro levou a senhora e eu agora vou enterrá-la e vou para outro sítio", sublinhou, constatando, para além de um "desprezo e desrespeito para com o centro histórico", uma realidade de "anticultura" em Coimbra.

Para Miguel de Carvalho, há cada vez menos pessoas de Coimbra "com vontade de ir à Baixa", agora cheia de turistas "que são despejados na Alta, compram um pastel de nata, um porta-chaves a dizer 'I Love Coimbra' e umas coisas de cortiça".

"As pessoas de Coimbra não andam às cegas e não têm prazer em ir à Baixa. Isso reflete-se no comércio e as casas não têm como sobreviver", explanou.

A curva descendente "acentuou-se há cerca de quatro anos", referiu.

A juntar a uma Baixa "desertificada", Miguel de Carvalho aponta também para a conjuntura económica, em que a classe média "foi vítima".

No entanto, "não é só a conjuntura económica. Há um virar de costas à Baixa, quando os centros históricos de outras cidades são bastante dinâmicos e estão cheios de vida", frisou.

Apesar de encerrar portas, o seu fundo livreiro, "representado por milhares de livros", vai ser visitável no seu depósito organizado na Figueira da Foz, mediante marcação prévia, informou, numa publicação no Facebook, referindo que espera, a curto prazo, "anunciar um possível e curto horário de funcionamento ao público".

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