Investigadores do Porto estudam a origem do gado doméstico da Península Ibérica

Investigadores do Porto estão a estudar os processos que ao longo do tempo deram origem às raças autóctones de gado doméstico da Península Ibérica para poderem descrever "a composição genética destas populações", revelou hoje a responsável do projeto.

Em declarações à Lusa, Catarina Ginja, líder do ARCHAIC -- um projeto que, desde 2016, se dedica ao estudo do gado taurino e do auroque [ancestral do gado doméstico] - contou que este tem como "evento primário de referência" a revolução agrícola do Neolítico, há dez mil anos, quando o Homem passou a controlar os seus próprios alimentos e animais.

O projeto baseia-se na análise de duas "grandes questões": "o melhoramento da espécie" ao longo do tempo -- com o estudo do aumento de tamanho do animal por ter deixado de ser visto como alimento, passando a ter um papel fundamental no transporte - e "a análise filocronológica", que vai permitir descrever a composição genética das populações que habitaram a Península Ibérica.

"Queremos entender os processos demográficos ao longo do tempo que deram origem às raças autóctones desta região. Por outro lado, queríamos descrever a variação relacionada com as características fenotípicas como, por exemplo, os genes responsáveis pela cor da pelagem e as características da carne", explicou a coordenadora do grupo de Arqueogenética do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) da Universidade do Porto.

Segundo Catarina Ginja, a maioria dos materiais utilizados pela equipa do projeto ARCHAIC, que finda nos próximos seis meses, derivam de "lixeiras" e de "restos de banquetes" realizados pelo homem, visto que "raramente surgem crânios ou cornos", materiais provenientes de rituais realizados na época.

"Ainda assim, temos uma taxa de sucesso muito boa na recuperação de ADN de amostras da Ibéria", salientou a investigadora.

Um dos resultados já observados pela equipa do ARCHAIC é a ocorrência de cruzamentos entre auroques ibéricos e o gado doméstico na zona de Valladolid, em Espanha, durante o período Calcolítico (3000-2200 a.C.), algo que a investigadora acredita ter sido "esporádico".

"Este resultado é inesperado. Acreditamos que tenha sido um evento esporádico, isto porque, tendo em conta os aspetos ecológicos, estes cruzamentos não representam grandes vantagens para as populações de auroques ibéricos", frisou.

Para a investigadora, que se dedica há vários anos ao estudo do passado das espécies de animais domésticos, como os bovinos, a "eminência de declínio populacional de auroques ibéricos" e a "coexistência com bovinos em pastos, onde os habitats eram comuns" poderão ser duas das razões que estão na origem deste cruzamento.

"Será que este foi um evento único? Ou, será que também ocorreu noutras regiões durante o mesmo período?", são agora questões que se colocam à equipa de investigadores.

O projeto ARCHAIC tem vindo a ser desenvolvido desde 2016 e foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e pelo programa Compete 2020 em cerca de 198 mil euros. Da equipa fazem ainda parte uma especialista em arqueogenética, Ana Elisabete Pires, e dois zooarqueólogos, Simon Davis do Laboratório de Arqueociências da Direção Geral do Património Cultural e Cleia Detry do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa.

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