Investigadores científicos querem apelar a primeiro-ministro para evitar desemprego

Cansados de ouvir apenas simpatia e sensibilidade para as suas reclamações, os investigadores científicos que vieram hoje à Assembleia da República admitem apelar agora diretamente ao primeiro-ministro para procurar uma solução que os salve do desemprego.

"Queremos fazer chegar a nossa voz ao primeiro-ministro, de outra forma isto é abafado e não passa do Ministério da Educação, que não está interessado em resolver o nosso problema", disse à agência Lusa a neurocientista Teresa Summavielle, da Universidade do Porto, uma das investigadoras recebidas na comissão parlamentar de Educação e Ciência.

Ao fundo da escadaria principal da Assembleia da República esperavam-na cerca de 30 colegas investigadores de todo o país, que se veem confrontados com a perda de emprego e do trabalho de investigação que fizeram nos últimos cinco anos ao abrigo do programa Investigador da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Josefa Pandeirada, investigadora em Psicologia na Universidade de Aveiro, afirmou que os primeiros contratos de cinco anos, totalizando quase 300 pessoas, começam a expirar em abril de 2018 e que "não existe qualquer proposta" em cima da mesa para dar continuidade ao trabalho de cientistas com funções de responsabilidade na investigação científica nacional e internacional "que têm levado o país a patamares de excelência".

Acabados os contratos e sem estar assegurada a sua renovação ou a criação de uma carreira para a investigação científica, marcada atualmente pela precariedade, ficam a meio projetos dos investigadores em causa e o trabalho das equipas que muitos coordenam e que já trouxeram muito financiamento às universidades e instituições portuguesas.

"Façam as contas. Se contarem todo o investimento, todos os postos de trabalho criados, todo o desenvolvimento de empresas que gerámos, vão ver que pagar-nos compensa", apelou.

A investigadora afirmou que a resposta dos deputados da comissão foi: "estamos sensíveis e vamos estudar medidas", o que, "de certa forma, é nada".

"Ciência de qualidade sem precariedade" foi a palavra de ordem da concentração ao fundo das escadas de São Bento, onde o biólogo Bruno Nunes, da Universidade de Aveiro, alertava para o efeito do fim dos contratos nos "rankings" internacionais onde as universidades portuguesas gostam de figurar.

"Assistimos na comissão a um jogo do empurra de responsabilidades políticas. Estamos a falar de danos à Academia nacional, na sua capacidade de angariar fundos, na lecionação, que também asseguramos, estamos a falar de equipas inteiras que vão desaparecer", afirmou.

Teresa Summavielle acrescentou que o Ministério da Educação está mais virado para criar emprego científico para investigadores mais jovens e que isso se fará à custa dos investigadores seniores, que não são abrangidos.

Os investigadores admitem que o programa de regularização dos vínculos precários na administração pública poderá ser uma maneira de saírem da precariedade, mas não querem que isso se faça à custa da perda de posição nas carreiras.

Da tutela, não esperam grande coisa: "o Ministério da Educação não tem, de facto, feito nada, porque diz que não pode impor vontades aos reitores e que as instituições não têm fundo para contratar todos", indicou Teresa Summavielle.

Josefa Pandeirada afirmou que a reunião de hoje teve pelo menos um aspeto positivo, o de dar visibilidade aos problemas dos investigadores seniores, que já passou por bolsas de pós-doutoramento e vários programas e que, em alguns casos ao fim de mais de dez anos, se vê "a braços com nada".

Depois de oito anos de trabalho em regime precário, a antropóloga Catarina Fróis, da Universidade de Lisboa, afirmou à Lusa que "o que está para trás e o que poderia ser" no seu e no trabalho de centenas de outros colegas "é deitado fora" se não houver solução.

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