Investigador diz ser "impressionante" trabalho artístico de comunidades em Portugal

Lisboa, 08 mai 2019 (Lusa) -- O investigador François Matarasso, que faz e acompanha arte comunitária em todo o mundo há quase 40 anos, considera "impressionante" como as comunidades em Portugal têm usado o trabalho artístico para responder a pressões como a crise económica.

O investigador, radicado em Inglaterra, apresenta hoje no Porto e na quinta-feira em Lisboa "Uma Arte Irrequieta -- Reflexões sobre o triunfo e importância da prática participativa", livro sobre a evolução da arte comunitária e participativa nos últimos 50 anos.

Desde 1981, ano em que começou a trabalhar em arte participativa, François Matarasso tem feito, acompanhado e investigado arte comunitária em cerca de 40 países. Apesar de trabalhar na área há quase 40 anos, só mais recentemente teve contacto com a realidade portuguesa.

"Até há quatro/cinco anos, antes de começar este projeto [do livro], sabia muito pouco sobre o que se passava em Portugal ou noutras partes do sul da Europa", contou em conversa com a agência Lusa.

Lembrando que muitos dos projetos existentes em Portugal "são recentes, têm 10/15 anos no máximo", e "cresceram numa situação muito difícil, com a crise económica e as pressões que países como Portugal enfrentaram", François Matarasso considera ser "surpreendente que as comunidades quisessem envolver-se em projetos de Arte, quando as próprias comunidades enfrentavam outras pressões".

"Mas, na verdade, o que acho impressionante é como eles usaram o trabalho artístico para responderem a isso", afirmou, dando como exemplo o projeto RefugiActo, dirigido a refugiados, que "tem usado o teatro de uma forma muito poderosa para promover a integração e a aprendizagem da cultura e da língua portuguesas".

O primeiro contacto do investigador com projetos desenvolvidos em Portugal aconteceu numa conferência em Sarajevo. "Fiquei muito intrigado com a variedade de coisas na primeira edição do PARTIS [programa da Fundação Calouste Gulbenkian, através do qual a instituição apoia projetos de inclusão social pela arte], vi uma apresentação e fiquei siderado com a qualidade dos projetos", recordou.

Na primeira edição do PARTIS (2013/2016) foram apoiados 17 projetos, entre mais de 200 candidaturas, na segunda (2016/2018) 16 de 160 projetos recebidos, e na terceira (2019/2021) foram escolhidos 15 projetos de 132 candidaturas. Cada edição termina com uma mostra, "Isto é PARTIS", que inclui apresentações dos projetos, apoiados a três anos, e uma conferência.

No livro, François Matarasso fala de alguns destes projetos, como o "Ópera na Prisão", da Sociedade Artística Musical dos Pousos, de Leiria, ou o Festival de Música de Setúbal e Ensemble Juvenil, promovido pela A7M Associação Festival de Música de Setúbal.

"Diria que estou muito impressionado com a qualidade do trabalho que vi e isso é uma parte importante da história em mudança", afirmou o investigador, para quem há "duas coisas muito importantes na arte participativa".

"[Primeiro] dá a pessoas que não são já parte da vida cultural de um país, ou que não são muito visíveis na vida cultural de uma sociedade, a oportunidade de se expressarem e de tornarem visível a sua identidade, o seu sentido de significado, de valores", destacou.

Além disso, "o trabalho participativo pode ser uma fonte de enorme criatividade". O investigador destaca que "na colaboração entre artistas profissionais - que trazem todo o seu conhecimento, habilidade, perícia e experiência, para o trabalho -- e artistas não profissionais - que trazem uma nova forma de olhar para as coisas e muitas vezes histórias urgentes -, os dois lados são muitas vezes levados a fazer coisas, a criar de maneiras que são inesperadas".

"E como resultado, o trabalho é muito diferente do trabalho que é produzido num contexto do mundo profissional da Arte, e isso traz, a todos nós, uma maior diversidade e criatividade na vida cultural", afirmou.

Quanto à consciencialização das instituições para estas práticas artísticas, François Matarasso considera que "as pessoas que lideram instituições culturais estão cada vez mais conscientes [da importância da arte participativa]".

Exemplos disso são grandes museus como a Tate, em Londres, "que agora tem uma vertente significativa de atividades participativas", ou a Philharmonie de Paris, "que tem estado a desenvolver um programa de educação de música clássica, Démos, para crianças de comunidades marginalizadas e desfavorecidas".

"Acho que há uma consciencialização crescente nessas instituições", disse. No entanto, para o investigador, "de certo modo, as instituições culturais e ainda mais as instituições políticas estão um pouco atrás".

François Matarasso recordou que, no início, as pessoas que conhecia e com quem trabalhava "eram muitas vezes céticas de se envolverem e sentiam que não era necessariamente para eles", e "isso mudou". Agora, quando trabalha "com pessoas em bairros, em projetos, há muito menos necessidade de explicar ou de encorajar as pessoas, há uma aceitação e um entusiasmo da Arte e do seu lugar na vida diária na maioria da população em geral".

"Onde eu acho que fica atrás é na liderança política e nos líderes de algumas instituições culturais, que nem sempre perceberam como as atitudes e as expectativas da Arte entre a população em geral mudaram", defendeu.

"Uma Arte Irrequieta -- Reflexões sobre o triunfo e importância da prática participativa" é apresentado hoje, às 18:00, no Espaço Cibermúsica da Casa da Música, no Porto, e na quinta-feira, à mesma hora, na sala 1 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

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