Governo timorense prepara plano de prevenção e combate à doença cardíaca reumática

O Ministério da Saúde timorense está a desenhar um plano de prevenção e diagnóstico, inserido no programa Saúde na Família, para combater a febre reumática e a doença cardíaca reumática, anunciou hoje o ministro da tutela.

Rui Maria de Araújo, que exerceu como médico durante o final da ocupação indonésia de Timor-Leste, disse à Lusa que o plano surge depois do primeiro estudo que confirmou que o país tem um dos índices mais elevados da doença do mundo.

"Em termos empíricos não tínhamos conhecimento da magnitude do problema e esta é a primeira vez que temos dados, mas a impressão clínica que fomos colhendo era de que havia muitos casos, não apenas da doença cardíaca reumática, mas da outra componente que é a febre reumática", explicou.

"Tudo isto tem também a ver com a infeção da garganta que é muito comum em Timor-Leste. Ainda não temos dados empíricos sobre se a maioria dos casos de infeção das vias respiratórias são causados pela mesma bateria específica que normalmente tem como sequela a doença cardíaca reumática", sublinhou.

Uma equipa de investigadores da Menzies School of Health Research, sediada em Darwin, liderou o estudo que, após análises a 1.400 jovens em idade escolar, comprovou que Timor-Leste tem um dos índices mais elevados de doença cardíaca reumática do mundo.

O trabalho confirmou uma prevalência da doença de 3,5%, entre os mais elevados do mundo, sendo que a quase totalidade dos casos identificados não tinham, até então, sido diagnosticados.

A maioria dos casos fica por diagnosticar até ao momento em que já causou graves problemas a crianças e jovens, indicou.

"Fiquei e continuo a ficar surpreendido pela prevalência e pelo número de casos que encontro. A prevalência é das mais elevadas do mundo", disse à Lusa, na terça-feira, Josh Francis, que liderou o estudo, agora numa segunda fase com a análise a mais 2.500 a 3.000 jovens.

A doença é mais comum entre as comunidades mais pobres, onde a má nutrição é um problema prevalente, pelo que esse é um dos aspetos a ter em conta, disse Rui Araújo.

O responsável explicou que uma equipa do Ministério da Saúde está já a desenhar um plano de diagnóstico e prevenção, com base naquele estudo, para ser inserido no programa Saúde na Família, lançado pelo próprio Rui Araújo em 2015, na altura enquanto primeiro-ministro.

"Este plano tem que ser inserido no programa de Saúde na Família, que estamos a intensificar em todo o país e que inclui visitas domiciliárias. É a forma de o tornar mais eficaz", frisou.

"Esperamos ter o plano mais ou menos feito nas próximas semanas. O componente de saúde pública, especialmente na medicina preventiva, está a ser desenhado pelo Ministério e envolve timorenses e os nossos colaboradores cubanos", sublinhou, destacando a experiência de Cuba no combate à doença.

Um dos componentes que pode vir a ser tido em conta é o uso de máquinas portáteis para ecocardiogramas - as mais pequenas que estão a ser usadas no estudo são do tamanho de smartphones -, o que pode facilitar o diagnóstico, especialmente em zonas remotas.

"Estamos a conversar com os investigadores para ver como introduzir sinergias, utilizando este método mais a estratégia de proximidade do programa Saúde na Família", acrescentou.

A maior parte dos casos da doença começa com um episódio de faringite estreptocócica ou outra infeção que, por diagnóstico desadequado ou falta de tratamento, acaba por levar à febre reumática, uma doença inflamatória que pode afetar o coração, articulações, pele e cérebro.

Em cerca de metade dos casos, a doença afeta o coração, causando lesões nas válvulas cardíacas, condição denominada por doença cardíaca reumática.

Globalmente, a doença, que pode ser prevenida e tratada, afeta mais de 32 milhões de pessoas, sendo responsável por cerca de 275 mil mortes por ano, segundo dados da organização não-governamental World Heart Federation (Federação Mundial do Coração).

A desnutrição e a pobreza são alguns dos principais fatores de risco da doença, mais prevalente em países em vias de desenvolvimento e entre povos indígenas em países desenvolvidos.

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