Família brasileira encontra laços com judeus sefarditas e pede nacionalidade portuguesa

Uma família brasileira residente no interior do estado do Ceará descobriu as suas raízes sefarditas portuguesas e já iniciou o processo de obtenção da nacionalidade em Portugal, divulgou hoje a imprensa brasileira.

De acordo com o portal de notícias G1, foram necessários anos de pesquisa, centenas de documentos, certidões de casamento de 300 anos e muito estudo para encontrar o elo entre a família Arruda e os judeus expulsos da Europa há cinco séculos.

A jornada da família cearense começou em 2015, quando Portugal anunciou que daria cidadania aos estrangeiros que provassem ter antecedentes sefarditas, uma forma de se desculpar com o povo banido da Península Ibérica no final do século XV.

Nertan Arruda foi o primeiro brasileiro a provar o vínculo com judeus sefarditas e obter a cidadania portuguesa.

"Fizemos pesquisa, nas cidades de Sobral e Massapê, e descobrimos documentos históricos sobre os primeiros descendentes dos judeus que foram expulsos da Europa e vieram para o Nordeste brasileiro. Em Lisboa, comprovaram a veracidade dos documentos em abril do ano passado e consegui a cidadania", referiu Nertan ao G1.

A partir do certificado de Nertan, o seu primo Henrique Sérgio Arruda aprofundou as investigações da genealogia sefardita no Ceará para obter o mesmo certificado para si e outros 29 familiares.

Para isso, Henrique Sérgio Arruda precisou da comprovação da ascendência de cada uma das 15 gerações que o separam de Branca Dias, uma judia morta em Pernambuco em 1558.

O empresário Henrique Sérgio Arruda já obteve os documentos que atestam sua familiaridade consanguínea com Branca Dias no Brasil e da Comunidade Israelita de Lisboa. Os documentos, no entanto, ainda precisam de ser analisados e aprovados pelo Ministério da Justiça.

A sefardita Branca Dias, expulsa de Portugal no século XVI, é identificada por alguns historiadores como a primeira mulher a lecionar no Brasil, mantendo escolas nos engenhos (fazendas de cana-de-açúcar) que manteve junto com o marido em Olinda, na antiga capitania de Pernambuco.

Branca Dias vivia na colónia portuguesa como uma "cristã nova", como eram identificados os judeus convertidos - às vezes forçadamente - ao cristianismo.

No entanto, às escondidas, praticava a religião judaica, facto que foi descoberto e levou-a à condenação pela inquisição. O julgamento e a relevância de Branca Dias deixaram vasta documentação dela e de seis gerações de seus descendentes.

Henrique Sérgio Arruda afirmou ao G1 que a cidadania portuguesa pode trazer benefícios práticos para si e para a família, mas a descoberta de suas origens familiares é o que mais o motiva a realizar as pesquisas genealógicas.

O genealogista Assis Arruda afirmou ainda ao portal de notícias que outras famílias no Ceará poderão ter vínculos com os judeus sefarditas portugueses.

O Governo português aprovou o decreto-lei que regulamentou a concessão da nacionalidade portuguesa, por naturalização, a descendentes de judeus sefarditas em janeiro de 2015.

O decreto-lei foi promulgado pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva e publicado em Diário da República no final de fevereiro de 2015, entrando em vigor a 01 de março do mesmo ano.

A legislação portuguesa prevê que os candidatos à nacionalidade tenham de apresentar uma lista de documentos, nomeadamente comprovativos de ascendência judia, incluindo um certificado a ser emitido pela Comunidade Israelita do Porto (CIP) ou pela Comunidade Israelita de Lisboa (CIL), que já receberam milhares de pedidos de certificados.

Mais de 5.500 judeus sefarditas pediram a nacionalidade portuguesa, e 431 obtiveram-na, desde a entrada em vigor da legislação, segundo dados oficiais de Portugal disponibilizados em fevereiro.

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