Especialistas defendem que reabilitação urbana em Lisboa deve incluir reforço antissísmico

Um grupo de especialistas que participaram no debate "Prevenção e minimização do risco sísmico e reforço da resiliência sísmica na cidade de Lisboa" defendeu que a reabilitação urbana na capital deve incluir um reforço dos edifícios.

O debate decorreu na quinta-feira nas instalações da Assembleia Municipal de Lisboa, sob proposta do CDS-PP.

O vice-presidente do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção do Instituto Superior Técnico, Mário Lopes, começou por afirmar que "é importante incorporar a resistência sísmica na reabilitação urbana", sob o risco de estarem a ser feitas "obras que são armadilhas mortais".

Na opinião do engenheiro, "o grau de exigência exigido na reabilitação urbana continua a ser zero", e "isto continua a ser feito com a cumplicidade do Governo, da Câmara de Lisboa e das entidades com responsabilidade na matéria".

Um dos exemplos é a "destruição da gaiola pombalina", comum na baixa da capital, que Mário Lopes considerou ser "um crime cultural".

"Lisboa é a primeira cidade do mundo construída para resistir a sismos, e somos nós próprios que a estamos a destruir", acrescentou.

Já o diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, João Pardal Monteiro, deu o exemplo de habitações que ficam fragilizadas devido à união de divisões.

"Temos que mentalizar as pessoas de que não se podem fazer intervenções neste tipo de edifícios sem técnicos qualificados para as fazer", defendeu o arquiteto, explicando que estas intervenções vão "tirar as características para resistir aos sismos".

Pardal Monteiro salientou que "as intervenções na cidade, para que isto não se torne um baralho de cartas pronto a cair ao primeiro sismo, têm de ser feitas com técnicos especializados".

Também Vasco Appleton, professor da Universidade Católica Portuguesa, advogou que "a reabilitação urbana deveria implicar uma intervenção de reforço antissísmico, isto deveria ser óbvio".

"Temos uma baixa pombalina profundamente intervencionada e ocupada, mas com mutas intervenções que são lavagens de cara", acrescentou, tendo proposto que a Câmara de Lisboa "passe a exigir a verificação do desempenho estrutural sísmico em edifícios pré-1983", bem como "a exigência de um diagnóstico estrutural prévio em todos os projetos de reabilitação".

No debate foi também lembrado que primeiro "regulamento que obriga ao cálculo sísmico das construções é de 1958".

A encerrar o debate, a vereadora da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa, Paula Marques, precisou que o município "tem estado a desenvolver vários instrumentos nesta matéria", como "a atualização da carta de solos, índice de residência sísmica, e um manual de boas práticas na reabilitação".

A autarca salientou que "no património disperso da câmara, é feito o reforço sísmico de cada vez que existe uma intervenção de caráter estrutural".

Por seu turno, o professor José Luís Zêzere, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, frisou que a "sismicidade em Portugal é moderada", uma vez que "os sismos de grande magnitude ocorrem com intervalos longos", mas ainda assim considerou que o "problema é suficientemente grande para ser tomado em consideração".

Também o especialista defendeu a necessidade de "implementar a obrigatoriedade do reforço antissísmico nos processos de reabilitação urbana", advogando ser "criminoso não o fazer".

Para os partidos que intervieram na sessão, a Câmara Municipal deve ter um papel importante nesta questão, ao nível da informação à população, da fiscalização das obras e da prevenção através do ordenamento do território.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Legalização do lobbying

No dia 7 de junho foi aprovada, na Assembleia da República, a legalização do lobbying. Esta regulamentação possibilitará a participação dos cidadãos e das empresas nos processos de formação das decisões públicas, algo fundamental num Estado de direito democrático. Além dos efeitos práticos que terá o controlo desta atividade, a aprovação desta lei traz uma mensagem muito importante para a sociedade: a de que também a classe política está empenhada em aumentar a transparência e em restaurar a confiança dos cidadãos no poder político.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Erros de um sonhador

Não é um espetáculo bonito ver Vítor Constâncio contagiado pela amnésia que tem vitimado quase todos os responsáveis da banca portuguesa, chamados a prestar declarações no Parlamento. Contudo, parece-me injusto remeter aquele que foi governador do Banco de Portugal (BdP) nos anos críticos de 2000-2010 para o estatuto de cúmplice de Berardo e instrumento da maior teia de corrupção da história portuguesa, que a justiça tenta, arduamente, deslindar.

Premium

João Taborda da Gama

Por que não votam os açorianos?

Nesta semana, os portugueses, a ciência política em geral, e até o mundo no global, foram presenteados com duas ideias revolucionárias. A primeira, da lavra de Rui Rio, foi a de que o número de deputados do Parlamento fosse móvel tendo em conta os votos brancos e nulos. Mais brancos e nulos, menos deputados, uma versão estica-encolhe do método de Hondt. É a mesma ideia dos lugares vazios para brancos e nulos, que alguns populistas defendem para a abstenção. Mas são lugares vazios na mesma, medida em que, vingando a ideia, havia menos pessoas na sala, a não ser que se fizesse no hemiciclo o que se está a fazer com as cadeiras dos comboios da ponte, ou então que nestes anos com mais brancos e nulos, portanto menos deputados, se passasse a reunir na sala do Senado, que é mais pequenina, mais maneirinha. A ideia é absurda. Mas a esquerda não quis ficar para trás neste concurso de ideias eleitorais e, pela voz do presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, chega-nos a ideia de incentivar votos com dinheiro.