ENTREVISTA: Nova Democracia vai regressar ao poder na Grécia com mandato claro e maioria -- dirigente

Lisboa, 26 jun 2019 (Lusa) -- O recém-eleito presidente do município de Atenas, Kostas Bakoyannis, manifestou à Lusa a esperança do regresso ao poder da Nova Democracia (ND) nas legislativas antecipadas de 07 de junho, com um "mandato claro e uma maioria para governar".

"Estou muito otimista com o 08 de julho, o dia a seguir ao 07 de julho. Penso que a Grécia tem a oportunidade de protagonizar um novo começo", referiu o dirigente da direita conservadora grega, que na segunda volta das eleições municipais de 02 de junho venceu com margem confortável (65%) o candidato do Syriza (esquerda, no poder central desde 2015) na capital da Grécia, onde se concentra quase metade da população do país balcânico.

"O Syriza ainda não está derrotado, mas acredito que a ND terá um mandato claro e uma maioria para governar. Caso contrário, tem de se perguntar a Kyriakos Mitsotakis [líder da ND e candidato a primeiro-ministro] em 08 de julho o que fazer. Mas estou muito otimista com o resultado", asseverou.

O "regresso à normalidade", o "respeito do Estado de direito, das instituições", uma "política económica mais eficaz" que permita o crescimento, uma "rede de solidariedade social que não deixe ninguém para trás" são os objetivos da ND, que juntamente com o antigo Pasok (socialistas) dominou a política grega desde 1974 até ao início da "crise da dívida" e a irrupção do Syriza na paisagem política helénica a partir de 2012.

"O Syriza é o partido que esteve mais tempo no poder nos designados 'tempos do memorando' [de entendimento], durante a crise, e falhou em muitos aspetos", assinalou Bakoyannis, um dos intervenientes na Conferência anual do Conselho Europeu de relações internacionais (European Council on Foreign Relations, ECFR), que decorre entre terça-feira e hoje na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

A derrota do Syriza nas eleições europeias em 26 de maio, e nos escrutínios regionais e municipais que decorreram em simultâneo, forçou o primeiro-ministro Alexis Tsipras a anunciar legislativas antecipadas, que apenas deveriam decorrer no outono.

Após cerca de dez anos de políticas de austeridades impostas pelo memorando da 'troika' de credores internacionais, a Grécia anunciou em agosto de 2018 a saída do terceiro e último programa, mas permanece sob apertada vigilância. E a ND considera que chegou a hora de regressar ao poder.

"Sejamos positivos, não negativos. Falemos do dia de amanhã. De momento, a Grécia está numa encruzilhada. Após dez anos muito difíceis, de uma crise com elevados custos económicos e sociais, podemos literalmente descolar", assegura o novo responsável por Atenas, que toma posse em 01 de setembro.

"Não apenas sarar as feridas da crise através de medidas como atrair investimento, criar empregos melhores e mais bem pagos, mas também curar as feridas sociais que a crise deixou. Cerca de meio milhão de jovens gregos teve de deixar o país, e um dos principais desafios do próximo governo será reverter esta tendência e mudar da 'evasão de cérebros' para o 'garantir cérebros'", acrescentou.

Kostas Bakoyannis, 41 anos, pertence à terceira geração de uma importante dinastia política grega e que confirma esta tradição sucessória, muito enraizada na ND e no Pasok. É filho de Dora Bakoyannis, a primeira mulher que dirigiu os destinos da capital, neto do patriarca Konstantinos Mitsotakis, ex-primeiro-ministro, e sobrinho de Kyriakos Mitsotakis, o atual líder da ND e principal rival de Tsipras para as legislativas.

O político da direita grega desvaloriza a sua pertença a esta linhagem e prefere outros argumentos.

"As pessoas não votam com um critério de reconhecimento de nome. As pessoas votam com o critério de quem lhes era mais útil. No meu caso, estou no governo local há dez anos. Fui presidente de câmara na pequena cidade de Karpenisi e aí o lixo não foi recolhido por nenhum membro da família, mas por mim", justifica.

"Ainda sou o governador regional da Grécia central, e as obras públicas nessa região foram feitos por mim e não pela minha família. As pessoas de Atenas terão a oportunidade de me julgar e mim e à minha equipa não apenas pelo que prometemos, mas sobretudo pelo nosso trabalho anterior, e que é visível para todos", salientou.

Nesse sentido, garante rejeitar a "personalização" dos resultados eleitorais, que devem ser sempre atribuídos "ao povo".

"É uma regra da democracia e da política. Assim, penso ser um sinal de que o povo quer uma mudança. Um sinal de que o povo quer e espera um caminho diferente na política. Baseado na obtenção de resultados, em ser verdadeiro, na dignidade, respeito e solidariedade", adiantou.

Ainda numa referência às legislativas de 07 de julho, o político que diz não acreditar em grandes projetos ou utopias mas antes na "vida real" aconselha prudência, mas parece adivinhar a mudança.

"Andar pelas ruas permite-nos ter a perceção que os gregos vão dar à ND um mandato político muito forte e muito claro. O que significa que a ND tem uma grande responsabilidade em tornar os gregos de novo orgulhosos", considerou.

No entanto, Kostas Bakoyannis também revela a sua vertente patriótica, outra característica helénica.

"Não é agradável ser critico do seu governo, independentemente do partido no poder, fora das fronteiras da Grécia" (...) "e quero ser cuidadoso no que digo, porque somos todos gregos e o nosso país deve transcender as tendências políticas e partidárias", disse.

Na sua campanha para o município de Atenas, também destaca o facto de o partido neo-nazi Aurora Dourada (CA) ter perdido 50% dos votos face às anteriores eleições locais.

"É uma vitória para nós, a nível do governo municipal, regional, nacional, europeu. Precisamos de falar a linguagem do povo, não podemos dizer-lhes como usar a faca e o garfo se não têm comida na mesa. Não podemos apontar o dedo, antes ouvir mais e falar menos", concluiu.

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