ENTREVISTA 'Fake news': Combate deve começar pelo cidadão -- Ana Pinto Martinho

A investigadora e jornalista Ana Pinto Martinho defende que uma das respostas para combater as "fake news", ou informações falsificadas, deve começar pelo cidadão a fazer a verificação de factos do que lê, em especial na Internet.

"Os jornalistas têm de fazer mais do que todos [a verificação de factos], mas eu também, enquanto cidadã, tenho de fazer alguma verificação", defendeu a professora do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, em entrevista à Lusa, alertando para a importância da literacia para os media.

"Quando partilho algo, também tenho uma responsabilidade de ver se aquilo poderá ser ou não uma notícia que seja falsa, uma 'fake news', ou algo que seja mais duvidoso", argumentou, desaconselhando a "partilha cega", apenas por ler um título.

Como não há nenhuma "solução milagrosa" para o problema, há várias estratégias possíveis a trabalhar e algumas delas "vão demorar algum tempo", como a educação para os media.

Ana Martinho segue a "grelha de análise" em cinco passos do Center for Media Literacy (Centro para Literacia nos Media), com sede nos Estados Unidos, que pressupõe um sentido crítico da parte dos cidadãos ao lerem textos, "memes" (pequenos vídeos manipulados que se tornam virais) ou verem vídeos na Internet e nas redes sociais.

Em primeiro lugar, é preciso perceber quem e se for alguém, por exemplo, com o nome Bombeiros 24, um dos "sites" associados por uma investigação do DN à difusão de "fake news", tem de se perguntar "o que é?" exemplificou.

"Tenho que ver se é um órgão de comunicação social, se tem jornalistas a trabalhar, de quem é? Não sendo algo conhecido como jornal ou televisão ou revista que já são mais conhecidas", descreveu a investigadora à Lusa, num trabalho preparatório sobre "fake news", tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

Em segundo lugar, surge o formato.

"Se for um 'meme' tenho que pensar duas vezes e se calhar não confiar tanto nele. Ou ver mais informação sobre o assunto", afirmou, sendo nesta parte da verificação que Ana Martinho aconselha mais os cidadãos a também fazer.

Depois, surge a audiência e a tentativa de "perceber para quem é que se destina" aquele conteúdo. "E às vezes conseguimos perceber perfeitamente a quem se destinam determinadas informações", disse.

Em quarto lugar, aparece "a parte do conteúdo", tentar percebê-lo "do ponto de vista crítico".

Por fim, o cidadão deve refletir sobre qual será o "objetivo que estas pessoas têm ao estar a veicular esta informação."

Um cuidado que se aplica "sobretudo a 'sites', que não são órgãos de comunicação social, mas isso também serve para órgãos de comunicação social", dado que, nos Estados Unidos, exemplificou, há medias "manipuladores e que "manipulam a informação mais para um lado do que para o outro".

Em questões de responsabilidade, Ana Martinho não responsabiliza, em última análise, os cidadãos por este "combate", embora alerte para o risco da "falta de sentido crítico da parte dos cidadãos".

As responsabilidades para combater o problema da 'fake news', considerada uma "ameaça à democracia" pela União Europeia, devem ser alargados.

A responsabilidade das plataformas, como o Facebook, poderia ser "afinar algoritmos que podem de certa forma ajudar na deteção destas notícias falsas", mas a especialista alertou para o facto de estas serem movidas "pelos interesses económicos".

Da parte dos Estados, dos governos, pode haver responsabilidades, mas com "algum cuidado".

"Toda a regulamentação que possa vir a ser feita em relação a esta questão das 'fake news' pode vir a entroncar em questões da liberdade de imprensa e de expressão", afirmou Ana Pinto Martinho, que adverte para um "efeito contrário àquilo que se quer".

As 'fake news', comummente conhecidas por notícias falsificadas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

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