Eduardo Lourenço qualificou como "autêntico milagre" interesse estrangeiro por Portugal

O ensaísta Eduardo Lourenço disse hoje que é "um autêntico milagre" o facto de os estrangeiros tanto se interessarem por Portugal e pela Cultura portuguesa, o que considerou tanto mais notável, dada a pequena dimensão do país.

Eduardo Lourenço falava na sede do Instituto Camões, em Lisboa, na apresentação da obra "La Letteratura Portoghese. I testi e le idee" ("A Literatura Portuguesa. Os textos e as ideias"), de Roberto Vecchi e Vincenzo Russo.

O autor de "O Labirinto da Saudade" disse que "é um milagre dos milagres", o facto de Portugal ser "objeto de uma espécie de amizade amorosa estranha, e não se sabe porquê".

"A verdade é que 'uma data de gente' de outras culturas se apaixonou pela história e pela cultura deste 'pequeno' país, que não é pequeno, pois é excessivamente grande para aquilo que poderia ser quando nasceu", disse.

O ensaísta disse que se pensa que, "lá fora, não temos uma imagem de marca, que passamos despercebidos, mas isso não é verdade".

"Não conheço nenhum país com a mesma estrutura, o mesmo tamanho, com uma história idêntica, que seja alvo de uma tão grande atenção", disse o ensaísta, que confessou não estar a contar ser ele a apresentar a obra dos autores italianos, que lhe é dedicada.

"Acho extraordinário. Não há palavras. O que é surpreendente [é] os povos de outras culturas, algumas matriciais da Europa, como a italiana, interessarem-se por Portugal e a sua cultura", disse. Para Eduardo Lourenço, a "cultura italiana é que se pode queixar, dado o que representou no passado, de não ser objeto de uma mitologia tão poderosa como aquela que consagramos ou inventamos, à cultura francesa ou à inglesa, e a outras como a russa".

A obra "La Letteratura Portoghese" é de autoria de dois professores da cátedra Eduardo Lourenço, na Universidade de Bolonha, no norte de Itália, é uma antologia de textos literários e faz uma síntese da literatura portuguesa, "desde as suas origens galaicas a [José] Saramago e 'aos Lobos Antunes'", disse Eduardo Lourenço, que afirmou não ter lido o livro, que "certamente leva um ano a ler".

Os autores, por seu turno, realçaram que o pensamento de Eduardo Lourenço atravessa toda a obra, que aborda 180 autores de língua portuguesa.

"Um livro que surgiu do contacto com os alunos", disse Roberto Vecchi, referindo que "possui elementos de alfabetização, da história, da cultura e da literatura" portuguesas.

Vecchi, que também é investigador associado do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, disse que a obra se destina a "estudantes que chegam à universidade, sem saber apontar no mapa onde fica Portugal".

O outro autor, Vincenzo Russo, disse que esta "é uma visão da literatura portuguesa das muitas possíveis", uma versão impressa em formato reduzido, com 642 páginas, mas a versão integral, de "mais 800 páginas", estará disponível 'online'.

Dando uma amplitude da obra, Russo, que leciona na Scuola Superiore di Studi Umanistici de Umberto Eco, na Universidade de Bolonha, disse que a última referência da cronologia é o dia 10 de julho de 2016, quando se verificou a vitória da seleção portuguesa de futebol, no Europeu da modalidade, disputado em França.

O presidente do Instituto Camões, Luís Faro Ramos, que se referiu a Eduardo Lourenço como "um dos melhores intérpretes da literatura portuguesa e da literatura universal", anunciou que, ainda este ano, será criada uma cátedra de Literatura e Cultura Portuguesas, Comércio e Turismo, na Universidade de Aix-Marselha, em Provença, no sul de França, em que o patrono será Eduardo Lourenço.

Para o autor de "O Labirinto da Saudade. Psicanálise mítica do destino Português" (1978), este anúncio surpreendeu-o verdadeiramente, e acrescentou: "Uma cátedra basta e chega".

"Mas gosto muito de Aix como cidade, a cidade de Cézanne", pintor que "adora", referindo-se a Aix-en-Provence. Mas acrescentou: "Já não tenho ânimo nem forças para suportar uma coisa destas".

Questionado pela agência Lusa sobre o acompanhamento do trabalho das cátedras da qual é patrono, como a de Bolonha, criada em dezembro de 2007, o ensaísta afirmou que já tem "mais que fazer" com a sua "cátedra invisível".

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