Dois sítios arqueológicos no estuário do Tejo carecem "urgentemente de investigação"

Dois sítios arqueológicos subaquáticos, no estuário do rio Tejo, frente ao ilhéu do Bugio, "demonstram possuir forte interesse patrimonial histórico-arqueológico, carecendo urgentemente de investigação", segundo um artigo publicado na revista de arqueologia Almadan.

"Não é descabido dizer-se que estes achados não constituem qualquer surpresa. Com efeito, a barra do porto de Lisboa deverá ser um dos locais mais perigosos da costa portuguesa, pelas condições exigentes de marinharia que exige a sua franquia, especialmente com embarcações à vela de alto bordo", afirmam os autores do artigo, entre os quais o arqueólogo subaquático Alexandre Monteiro, da Universidade Nova de Lisboa (UNL).

"Ambos os sítios demonstram possuir forte interesse patrimonial histórico-arqueológico, carecendo urgentemente de investigação preliminar básica capaz de aclarar a sua extensão e expressão", realçam os autores, que apontam, em termos de cronologia, tratar-se de um naufrágio dos séculos XVII ou XVIII, num dos locais, catalogado como "Tejo A" e, o outro, catalogado como "Tejo B", um naufrágio do "período Moderno" (século XV a XVIII).

"Cronologias que só poderemos afinar perante a análise estrutural dos destroços", e outros processos de análise, ressalvam os autores.

Os achados no sítio "Tejo A" estão à profundidade máxima de 10,5 metros, ligeiramente a ocidente do farol do Bugio, e são "conjuntos de madeiras, avultando no local a existência de dois canhões em ferro, de grande calibre e de três âncoras".

O sítio "Tejo B", localizado entre o farol do Bugio e a Trafaria, no concelho de Almada, no esporão da Cova do Vapor, na preia-mar, encontra-se a uma profundidade média de 7,5 metros, e é constituído por "uma zona de destroços em madeira, e por um número bastante expressivo, na ordem das várias centenas, de barris em madeira".

"Estes barris poderão corresponder quer a carga diversa transportada pelo navio, cujo naufrágio deu origem a este sítio, hipótese para a qual nos inclinamos em primeiro lugar, quer no todo ou em parte, às vitualhas para o abastecimento da sua tripulação e passageiros", lê-se no artigo dos arqueólogos.

Adiantam os autores que "foi possível observar uma peça que aparenta ser a quilha da embarcação e, conexa com esta, parte de uma roda de popa ou proa [e] vários elementos do madeirame".

Estes dois sítios arqueológicos subaquáticos foram encontrados pelos mariscadores Pedro Patacas e Sandro Pinto, que, em 2012, entraram em contacto com o arqueólogo responsável pelo estudo dos artefactos subaquáticos de um veleiro, sítio no estuário do rio Sado, catalogado "Troia 1".

Para o "Tejo A", os arqueólogos afirmam que se trata "claramente de um navio que encalhou". No caso do "Tejo B", é "muito provavelmente um navio que tentou passar", encalhou e ficou preso.

Há registo, referem os investigadores, de "dezenas de naufrágios ocorridos nesta zona da barra do Tejo", sendo os mais emblemáticos os da "nau 'Nossa Senhora dos Mártires', do navio de guerra inglês de 74 canhões 'Bombay Castle' e do navio a vapor 'Patrão Joaquim Lopes'".

A pesquisa destes dois sítios arqueológicos subaquáticos foi efetuada por técnicos do Centro de Investigação da Marinha (entre os quais Jorge Freire, que também assina o artigo), do Instituto de História Contemporânea, da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), e pelo biólogo marinho Gonçalo Calado, diretor do Departamento de Ciências da Vida da Universidade Lusófona.

Os mergulhos foram efetuados a partir da embarcação "Selvagem Grande", da EMEPC, com a qual o Instituto de Arqueologia e Paleociências, da UNL, tem um protocolo, no âmbito do apoio ao mergulho arqueológico e à prospecção geofísica.

Para este mergulho de prospeção foi dado conhecimento à Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), tendo-se solicitado "a participação de arqueólogos afetos àquela instituição, o que não se concretizou".

Relativamente a estes achados, os autores -- Alexandre Monteiro, Jorge Freire, Flávio Biscaia, Paulo Costa, Marijo Gauthier-Bérubé, Pedro Patacas e Sandro Pinto -- recomendam o estabelecimento de "um canal de comunicação com o Instituto Hidrográfico, no sentido de se partilhar a informação recolhida pela sua Brigada Hidrográfica".

Recomendam igualmente que "se recolham amostras seletivas de madeira, nomeadamente de aduelas dos barris do Tejo B", e que "se faça uma prospeção geofísica, com sonar de varrimento lateral, multifeixes e magnetómetro nas áreas do Tejo A e do Tejo B".

Recomendam ainda os autores que "se envolvam os achadores em todo o processo de investigação e disseminação e se proceda o quanto antes, por parte da DGPC, ao processo de classificação dos sítios, no sentido de se dar cumprimento legal ao processo de recompensa por declaração de achado fortuito".

"Afinal, depende dos utentes do mar e da sua boa vontade o ingresso da esmagadora maioria dos vestígios de património cultural subaquático no conhecimento oficial e académico", rematam.

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