DGArtes: Seiva Trupe anuncia cancelamento de peça por falta de apoio

A companhia Seiva Trupe anunciou hoje o cancelamento da peça "O Crime de Aldeia Velha" prevista para julho em Matosinhos, justificando a decisão com a exclusão do programa de apoio sustentado da Direção-Geral das Artes.

Em comunicado, a companhia teatral diz-se "forçada" a cancelar a peça de Bernardo Santareno, a qual contava com "um elenco de mais de 20 elementos de primeiríssima água do panorama teatral".

"Ao fim de 45 anos de trabalho diário, constante, com provas mais que dadas no panorama cultural deste país, somos agora obrigados a tal absurdidade", refere a Seiva Trupe.

Contactada pela Lusa, fonte ligada a esta companhia acrescentou que a peça em causa deveria estrear-se em 18 de julho no Cine-teatro Constantino Nery, em Matosinhos, sendo uma coprodução com a câmara deste concelho do distrito do Porto.

De acordo com a programação daquele espaço, a peça, com encenação de Júlio Cardoso, iria ficar em cena até 29 de julho.

A mesma fonte apontou que os ensaios foram cancelados e a peça não se realiza "apesar de os cenários já estarem desenhados e de os atores estarem contratados".

Já no comunicado, a Seiva Trupe refere que por esta companhia "passaram grandes espetáculos, com autores reconhecidos da dramaturgia universal, com elencos de elevado mérito, bem como jovens atores".

"Conscientes de um programa quadrienal por nós apresentado de uma forma honesta e bem definida, em que constam autores como Ibsen, James Joyce, Bernard Shaw, Shakespeare, Thomas Bernhard e, de autores nacionais, Bernardo Santareno e António Pedro, entre outros, diz-nos o júri que é uma candidatura vaga e pouco explícita no que concerne à descrição das atividades", critica a companhia.

Na última quarta-feira, foi anunciado que 68 entidades das 71 candidaturas elegíveis para apoios ao teatro iriam ser apoiadas no âmbito do programa de apoio sustentado às artes 2018-2021.

Ao programa de apoio sustentado na área do teatro concorreram 90 entidades, 68 das quais receberam financiamento depois de protestos do setor, que se seguiram à divulgação dos resultados preliminares, que colocavam de fora várias companhias históricas do país.

Dessas 90, 71 foram consideradas elegíveis e, destas, por sua vez, três ficaram de fora de financiamento (associação cultural Primeiros Sintomas, associação Liberdade Provisória e Teatro A Bruxa).

Agora conhecidos, os resultados finais mantiveram como inelegíveis companhias como o TEP, a Seiva Trupe e o Festival Internacional de Marionetas do Porto, entre outras.

Os concursos do Programa de Apoio Sustentado da DGArtes, para os anos de 2018-2021, partiram com um montante global de 64,5 milhões de euros, em outubro, subiram aos 72,5 milhões, no início de abril, perante a contestação no setor e, mais tarde, o Governo anunciou novo reforço para um total de 81,5 milhões de euros, tendo o valor final sido de 83,04, segundo publicação em Diário da República.

Na sequência desta notícia, o diretor do Teatro Experimental do Porto anunciou o pedido de audiências ao Ministério da Cultura e à Câmara do Porto, admitindo recorrer a "todos os mecanismos jurídicos" contra os cortes de financiamento da DGArtes.

Também o diretor do Festival Internacional de Marionetas do Porto disse que estavam a ser "estudadas todas as possibilidades" para enfrentar a perda de financiamento da DGArtes, lamentando que o júri defenda, assim, que o festival acabe.

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