Depois da "revolta", professores regressaram hoje às negociações com ministério

Representantes sindicais voltaram hoje a reunir-se com responsáveis do Ministério da Educação conseguindo que a "revolta" com o fim das negociações sobre recuperação do tempo de serviço não interferisse nas negociações sobre o despacho de Organização de Ano Letivo.

Durante a manhã, o secretário de Estado da Educação, João Costa, recebeu representantes do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados pelos Politécnicos e Universidades (SPLIU), da Associação Sindical de Professores Licenciados (ASPL) e do Sindicato dos Educadores e Professores Licenciados (SEPLEU) para discutir a proposta de despacho de Organização de Ano Letivo, que estabelece matérias como a definição do trabalho dos professores que é considerado componente letiva e não letiva.

"A reunião serviu essencialmente para apresentarmos as nossas propostas de alteração, já que o que nos foi apresentado foi o documento que já era conhecido", disse à Lusa a presidente do ASPL, Fátima Ferreira, explicando que ficou marcado para a próxima semana novas reuniões para, então, discutir uma segunda versão da proposta que espera que "inclua as sugestões dos sindicatos".

"Durante as duas horas da reunião estivemos completamente focados neste assunto, de tal forma que conseguimos que a revolta, que sentimos ontem durante as negociações sobre a contagem do tempo de serviço congelado, não dificultasse o diálogo de hoje", recordou Fátima Ferreira.

Manuel Monteiro, presidente do SPLIU, acrescentou que a reunião de segunda-feira foi "uma reunião política, ao passo que a de hoje foi de discussão do despacho de Organização do Ano Letivo (OAL)".

"A reunião de hoje decorreu num clima de grande abertura, diálogo e concertação, logo, num tom muito diferente da reunião realizada no dia anterior com o Ministro da Educação e Secretária de Estado Adjunta", sublinhou Manuel Monteiro.

Também Fátima Ferreira considerou o encontro de hoje positivo, com o secretário de estado a mostrar-se "interessado e disponível" para acolher algumas das sugestões apresentadas.

Sobre a proposta de Despacho Normativo de Organização do Ano Letivo 2018/2019, os sindicatos defendem uma "melhor clarificação do trabalho que é considerado componente letiva e não letiva, considerando que todo o trabalho desenvolvido diretamente com os alunos deverá integrar a componente letiva dos docentes", sublinhou Fátima Ferreira, uma posição corroborada por Manuel Monteiro.

"Garantir um tempo à componente não letiva de trabalho individual imprescindível para a preparação de aulas, para a preparação e análise dos instrumentos de avaliação, para atualização de conhecimentos, para a investigação, para a preparação da sua participação em reuniões de conselho de turma, do departamento e do conselho de docentes, para a preparação de encontros com os encarregados de educação, para a preparação de atividades complementares que a escola deve desenvolver e para corrigir trabalhos, testes e exames", defende ainda o SPLIU.

A definição dos horários de trabalho e a desburocratização das funções dos professores nas escolas foram outras das medidas defendidas hoje de manhã na reunião com o secretário de estado.

Na segunda-feira, depois de um dia de reuniões com os 23 sindicatos, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, anunciou que os docentes não iriam ter contabilizado qualquer tempo de serviço congelado por terem falhado as negociações.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.