Cabo Verde não tem literatura-mundo, diz Germano Almeida

O escritor Germano Almeida, um dos mais traduzidos de Cabo Verde, defendeu hoje que o país ainda não tem uma literatura-mundo, exortando os poderes públicos a apoiarem a tradução de obras de autores cabo-verdianos.

"Cabo Verde ainda não tem uma literatura-mundo porque sozinhos não conseguimos chegar ao mundo. Diversos livros meus foram traduzidos para diversas línguas estrangeiras, todos com o apoio de Portugal, nenhum com o apoio de Cabo Verde", disse Germano Almeida

O autor de livros como "Eva", o "Testamento do Senhor Nepomuceno" ou o mais recente "Do Monte Cara vê-se o Mundo", falava aos jornalistas hoje no âmbito do festival Literatura-Mundo do Sal, depois de ter participado num painel que pretendeu fazer uma abordagem à posição da literatura cabo-verdiana neste contexto.

"Não sei até que ponto Cabo Verde tem apoiado a tradução de livros no estrangeiro, mas é uma necessidade que nós é que temos que cumprir se queremos que a nossa literatura chegue ao mundo", sublinhou.

No painel, em que participaram outros escritores cabo-verdianos, como Arménio Vieira, Dina Salustio ou José Luiz Tavares, Germano de Almeida adiantou que pessoalmente não sente "nenhuma necessidade de ser lido e conhecido lá fora.

"Para mim, Cabo Verde é o centro do mundo. Escrevo para ser entendido pela minha gente e ficaria desiludido se os cabo-verdianos não me entendessem. Fico muito contente de ser lido em Cabo Verde. Se lá fora for lido e traduzido também fico contente, mas não escrevo a pensar nisso, nem é uma preocupação minha", disse.

No segundo dia do festival literário, os vários intervenientes nos painéis continuaram à procura de definir um conceito de literatura mundo, que a investigadora e docente universitária Inocência Mata considera assentar em três eixos: produção, tradução e circulação.

A investigadora do Centro de Estudos Comparatistas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Patrícia Infante Câmara alertou para o que considera ser "a falácia" de achar que o universalismo define a literatura-mundo.

"Esse é o grande perigo. A literatura-mundo é um modo de ler e de olhar para a literatura que privilegia o contacto entre as literaturas e o valor da tradução que permite a circulação. Não é o somatório de todas as literaturas do mundo, é perceber como todas as literaturas podem ser mundo", disse.

"A literatura como objeto não é nada, depende dos leitores que podem estar no Sal, em Lisboa ou em Nova Iorque, é indiferente", disse, sublinhando que é o modo como cada um lê que dá mundo aos livros.

O tradutor e editor da revista literária norte-americana "Words without Borders", Eric Becker, assinalou, em conversa com os jornalistas, que a literatura de língua portuguesa não tem "muita penetração" vnos Estados Unidos, panorama, que segundo disse, "se agrava quando se fala de escritores brasileiros ou de países africanos".

Considerando-se também responsável por este cenário, Eric Becker disse estar a preparar um número da sua revista focado na literatura cabo-verdiana, de que Germano Almeida é o único escritor com tradução para inglês.

O festival Literatura-Mundo decorre até domingo na ilha do Sal, em Cabo Verde, como atividades nas cidades de Espargos e Santa Maria.

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