ENTREVISTA: Políticas migratórias devem estar dirigidas ao combate à pobreza - investigador

Os países mais pobres e próximos do Equador serão os mais afetados pelas alterações climáticas, que vão forçar milhões de pessoas a deslocar-se, segundo um investigador belga que defende políticas migratórias direcionadas para o combate à pobreza.

Lusa

Em entrevista à Lusa, Frédéric Docquier, da Universidade Católica de Louvain (Bélgica), co-autor de um estudo sobre alterações climáticas, desigualdades e migração que foi hoje apresentado em Carcavelos, adiantou que cerca de 200 milhões de pessoas deverão ser obrigadas a deslocar-se durante o século XXI devido ao clima e que "algo deve ser feito para minimizar os custos" dos migrantes climáticos.

Entre os países que mais vão sofrer estes efeitos, apesar de serem dos que menos contribuem para as alterações climáticas, encontram-se Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Timor-Leste, embora nem todos sejam afetados da mesma forma.

O investigador e professor de Economia salientou que os países que mais vão ser prejudicados pelas alterações climáticas reúnem três condições -- serem pobres, dependerem fortemente da agricultura e baixos níveis de educação e qualificação e defendeu que as políticas migratórias se centrem num verdadeiro combate à pobreza.

"Se aliviarmos as restrições face a um determinado país, quem vai beneficiar são as pessoas mais qualificadas, e se estas emigram mais, isso significa que esses países ainda vão empobrecer mais porque há uma fuga de cérebros e podemos estar até a agravar a pobreza", realçou.

"Temos de atingir as pessoas certas, nos países certos", acrescentou o académico.

As migrações climáticas serão sobretudo internas, já que os países mais afetados são pobres e as dificuldades económicas condicionam as migrações internacionais: não só as distâncias são maiores, tornando os custos de emigrar são mais caros, mas é importante ter também uma rede de apoio externa, salientou Frédéric Docquier.

As alterações climáticas criam condições favoráveis para aumentar a mobilidade laboral e terão implicações económicas e efeitos heterogéneos nos diferentes países.

Alguns países poderão assistir a uma queda de longo prazo no rendimento por trabalhador que varia entre 14% e 22% quando a temperatura aumenta em 2 graus, um cenário médio analisado no estudo. São Tomé e Príncipe está neste grupo de 20 países onde o nível de rendimento por trabalhador será mais afetado pelas alterações climáticas e que inclui também Gâmbia, Venezuela, Nepal, Granada, Nicarágua, Malásia, República Dominicana, Gana, Filipinas e ilhas do Pacífico.

Já Cabo Verde é um dos países onde a resposta às alterações climáticas terá maior influência nas taxas de emigração.

Considerando os cenários mais extremos, o impacto das alterações climáticas vai agravar os índices de pobreza em países como Moçambique, Timor-Leste, Burundi, Camarões, Eritreia, Guiné, Nepal, Tanzânia, Togo e Zimbabué.