Água: Ex-ministro Nunes Correia defende medidas para antecipar alterações climáticas

O antigo ministro do Ambiente Francisco Nunes Correia defende que Portugal deve adotar medidas para antecipar as alterações climáticas, com novas barragens, uso eficiente da água e "atitude prudente" quanto à construção na linha de costa.

"É preciso levar muito a sério os cenários de alterações climáticas", pois, embora esse processo "tenha alguma incerteza, cada vez começa a ser mais claro em que sentido as coisas estão a ir", alertou o antigo ministro, agora professor no Instituto Superior Técnico (IST).

A propósito do 8.º Fórum Mundial da Água, que começa hoje em Brasília (Brasil), Francisco Nunes Correia defendeu à agência Lusa que Portugal deve adotar "medidas que antecipem" as alterações climáticas", sendo a questão do armazenamento de água "muito importante" para o país.

Já existem hoje, lembrou, "modelos bastante sofisticados que mostram que em Portugal, por exemplo, as disponibilidades médias de água podem diminuir 20% a 30%".

"E, talvez mais importante do que isso, as situações vão ser mais extremadas", ou seja, "vamos ter mais cheias, por um lado, e mais secas, por outro", continuou o antigo ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional, entre 2005 e 2009.

Portugal, argumentou, até está "razoavelmente dotado em termos de recursos hídricos" e tem uma costa atlântica com "zonas das mais pluviosas da Europa", mas "o problema é a irregularidade" das disponibilidades hídricas ao longo do ano.

"Temos um clima tipicamente mediterrânico, com uma estação húmida muito intensa e, depois, uma estação seca muito prolongada. E, de ano para ano, há variações também muito grandes, por isso, o armazenamento de água tem muita importância", frisou.

Aludindo à atual seca que tem assolado o país, sobretudo o Alentejo, Nunes Correia evidenciou a importância de uma barragem como a do Alqueva.

"O que seria do Alentejo sem o Alqueva hoje? E não é só o aproveitamento do Alqueva, é a água que fornece a um conjunto enorme e diversificado de albufeiras" na região, disse.

Trata-se de um projeto, realçou, que prova que "armazenar água é muito importante, como forma de aproveitar os momentos em que a água é abundante para, depois, poder utilizá-la nos momentos em que é escassa".

Daí que, segundo Nunes Correia, "uma primeira medida" a adotar, nomeadamente do lado da oferta e das disponibilidades de água, seja a construção de novas barragens, num processo "com todos os cuidados ambientais".

"Uma barragem perturba sempre profundamente os ecossistemas, mas, nos ganhos e perdas, é preciso perceber que isso tem de ser feito", defendeu.

Já do lado da procura e das necessidades, assinalou, "é preciso um uso eficiente da água" no país, sobretudo no que respeita à agricultura.

"São os dois lados da equação e é preciso atuar em ambos" para que o país "se torne resiliente às alterações climáticas", afirmou o antigo ministro.

O professor do IST defendeu ainda "uma atitude prudente" no país quanto à construção "junto à linha de costa a cotas muito baixas", lembrando que são zonas que "ficam sujeitas a inundações muito mais graves, não só pelas cheias, mas também pelo aumento do nível do mar".

"Todas estas medidas conhecem-se bem. É preciso é alguma coragem política para as implementar, porque, como têm em vista problemas que só vão ter verdadeira intensidade daqui a dez ou 20 anos, apesar de já hoje se sentirem, por vezes, pode haver a tentação de 'empurrar com a barriga'", avisou.

O Fórum Mundial da Água, para debater os problemas deste recurso, com destaque para as alterações climáticas, reúne governantes, organizações, empresas e especialistas e decorre até sexta-feira.

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