Académico alerta que políticos e historiadores ignoram origem dos conceitos ideológicos

O autor do livro "Breve História da Ideologia Ocidental" Rolf Petri defende que os políticos e historiadores europeus ignoram a origem dos conceitos ideológicos que utilizam e acabam por afastar-se da cultura que marcou o ocidente durante séculos.

"De um ponto de vista académico os políticos e a sociedade em geral não usam de forma correta os conceitos históricos e ideológicos. O que circula na esfera pública no que diz respeito à História está desatualizado. Os historiadores profissionais são atores com uma influência limitada sobre a forma como a sociedade encara o passado. Do meu ponto de vista, seria bom que os historiadores conseguissem ser mais assertivos e precisos quando se referem à História dos conceitos políticos", diz à Lusa o académico italiano.

Caso contrário, adianta, "corremos o risco de vermos os conceitos fossilizados e transformados em dogmas, sobretudo numa altura em que devemos refletir mais do ponto de vista histórico", disse à Lusa o autor do livro "Breve História da Ideologia Ocidental" lançado este mês em Portugal.

Segundo Rolf Petri, professor de História Contemporânea da Universidade Ca' Foscari de Veneza, o livro apresenta uma investigação "sintética" e "abrangente" dos conceitos ocidentais permitindo o entendimento da complexidade cultural europeia e os conflitos de ideias ao longo da História.

"Quando a ideologia foi inventada significava: estudo sistemático das ideias, mas depois os significados começaram a desaparecer. A ideologia foi vista como algo sem relevância prática, falsa consciência ou discurso marginal e irracional", adianta.

E explica: "Desde os anos 1960, alguns teóricos escreveram no ocidente que o tempo da ideologia tinha terminado e que já não havia lugar para seguir discursos apaixonados sobre política irracional. Esta ideia passou a triunfar depois da queda do comunismo (1989) em que a suposta falta de ideologia indicava que o racionalismo europeu tinha ganhado".

"Isto foi, evidentemente, uma forma de muitos dizerem 'nós temos ideias, vocês só têm ideologia'", sublinha.

Para o académico italiano é preciso prudência quando se fala do fim das ideologias porque apesar das divergências o "território" ocidental é ocupado por muitas ideologias: "teísmo, ateísmo, crentes e anticlericais; nacionalistas e internacionalistas, conservadores, fascistas, liberais, republicanos, anarquistas, democratas, socialistas ou comunistas".

"Não é verdade que os apoiantes destas ideologias lutaram umas contra as outras e em alguns casos exterminaram-nas em nome da sua própria ideologia? Como pode existir uma ideologia que as unifique a todas? Na minha opinião tudo isto acontece porque a ideologia ocidental é um sistema consciente que apesar de ser feito através de projetos políticos inconciliáveis têm no limite uma narrativa que é permeável a todas as aparências", defende Rolf Petri

Para o historiador, durante milénios os "campos de gravitação humana" estavam na Ásia, mas a partir do século XV começou a "aventura da expansão colonial europeia" e do comércio marítimo que terminou depois da Revolução Industrial, no século XIX.

Antes da Grande Guerra (1914-1918), explica, as elites no poder na Europa dominavam o mundo, mas "agora" verificam-se mudanças sendo que o processo de descolonização foi premonitório sobre a hegemonia ocidental, diz Petri, acrescentando que as dinâmicas económicas estão atualmente a favor da Ásia e de outros pontos apesar da maior parte das instituições financeiras se encontrarem ainda sob o controlo ocidental assim como a presença militar ocidental em todos os continentes.

"Estamos atualmente no meio destas mudanças e é evidente que não podem ser encaradas como transições menores, mas sim como mudanças histórias globais. Para mim trata-se de uma questão extremamente importante saber como as nossas ideias ocidentais se vão posicionar e localizar", diz Rolf Petri.

O livro "Breve História da Ideologia Ocidental -- Um Relato Crítico", de Rolf Petri (Temas e Debates/Círculo de Leitores) foi publicado este mês em português.