"Índice Médio de Felicidade", um filme sobre a supercapacidade de não desistir

O realizador Joaquim Leitão estreia na próxima semana o filme "Índice Médio de Felicidade", protagonizado por personagens que têm a supercapacidade de conseguir ter esperança e não desistir em tempos de crise, como contou à agência Lusa.

"Índice Médio de Felicidade", que chegará a mais de 40 salas, é uma adaptação para cinema do romance homónimo de David Machado, editado em 2013 e cujo drama familiar remete para os anos recentes de austeridade pela crise económica no país.

A história centra-se em Daniel (interpretado por Marco d'Almeida), que vê a vida familiar e pessoal a desmoronar-se depois de ter sido despedido, mantendo, ainda assim um otimismo que contagia todos.

"Há uns anos que desejava fazer um filme que tivesse como pano de fundo a crise. O que se passou neste início de século, agora com a história do terrorismo e depois com a crise financeira, abalou um bocadinho aquilo que era o meu ponto de vista sobre o mundo e sobre a vida. E criou em mim o desejo de falar sobre isso", explicou Joaquim Leitão.

Depois de várias pesquisas, leu o romance de David Machado e percebeu que era a história que queria fazer.

"Para mim, é um filme de super-heróis, porque são pessoas que conseguem ter esperança e capacidade e resistir, parecem invencíveis nas condições mais adversas. Não têm superpoderes, mas têm uma supercapacidade de ter esperança e não desistir", afirmou o realizador.

No filme, tal como no romance, há uma família a dividir-se, um amigo que é preso depois de um ato de desespero, um adolescente que vive um pouco ao abandono e uma mulher que precisa de ajuda.

Apesar de a crise económica ser uma das alavancas do enredo, tanto David Machado como Joaquim Leitão focam-se nessa ideia de esperança no futuro. "Muitos dos filmes têm uma perspetiva negra da realidade. Este tem uma perspetiva luminosa", disse.

"Algumas coisas que nos fazem felizes são grátis. E o personagem do filme reflete sobre isso e sobre outra coisa em que acredito profundamente: As pessoas não são felizes sozinhas e a felicidade é contagiante. (...) Há muitas coisas que a gente não consegue controlar na nossa vida. Há uma coisa que consigo controlar: a maneira como reajo às coisas que não controlo. Não é pelo facto de as nossas condições de vida tornarem-se piores que deixamos de ter possibilidade de ser felizes", acredita Joaquim Leitão.

No relatório internacional sobre felicidade de 2017, que cruza várias informações sobre qualidade de vida dos cidadãos, a Noruega surge em primeiro lugar com 7,5 valores. Portugal surge em 89.º lugar com 5,1 valores.

"Não fiz as contas do meu índice médio de felicidade, não acredito que possa ser quantificado. (...) Temos uma perspetiva muito cética sobre nós próprios. E temos uma deficiência de autoestima, mas não acho que seja real. Nós somos das sociedades mais civilizadas que eu alguma vez tive oportunidade de contactar, temos uma maneira de resolver problemas que é maravilhosa", qualificou.

Joaquim Leitão, 60 anos, estreia "Índice Médio de Felicidade" numa altura em que finaliza a rodagem de um outro filme que pretende estrear ainda este ano, a adaptação do livro "O fim da inocência", de Francisco Salgueiro, e no qual volta a mergulhar num tema que toca a filmografia: a adolescência.

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