História da Guerra Fria analisa revolução portuguesa e conflitos em África

O historiador norueguês Odd Arne Westad refere no livro "Guerra Fria" que o envolvimento soviético em Angola começou "sem um plano central" provocado por Havana e marcado por um sentimento de "vingança" contra os Estados Unidos.

"Os americanos tinham razão em ver Angola como uma nova forma de intervenção soviética, embora em Moscovo isso tenha acontecido por acaso", refere o historiador no livro "A Guerra Fria -- Uma História do Mundo" publicada em Portugal.

Sobre a questão angolana, o historiador, da Universidade de Harvard, usa como fonte Karen Brutents, ex-chefe-adjunto do Departamento Internacional do Partido Comunista da União Soviética que indica que a intervenção no país, após 1975, "tornou-se um facto sem qualquer plano central".

O autor frisa que o líder soviético Leonid Brejnev mostrou ceticismo em relação ao "investimento" em Angola e ao êxito cubano e mesmo em relação ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) mas que a atuação no terreno acabou por se transformar num sentimento de "vingança" em relação à crise dos mísseis, em Cuba, em 1962.

"O mais importante, na perspetiva de Moscovo, era a necessidade de apoiar os cubanos e não os desiludir uma segunda vez", sublinha o historiador que aponta a História das ex-colónias portuguesas como um dos aspetos que exemplificam o confronto ideológico entre Washington e Moscovo após o final da Segunda Guerra Mundial.

Sobre os acontecimentos que acabaram por derrubar a ditadura portuguesa em 1974, Odd Arne Westad considera que a paciência da população portuguesa com as guerras coloniais, "impossíveis de vencer", estava a esgotar-se, sobretudo por motivos económicos.

O historiador escreve: "o acontecimento que acabou com o regime foi a crise petrolífera. Pura e simplesmente. Portugal não tinha como manter a população com combustível subsidiado, ao mesmo tempo que fornecia militares para combater em África".

"A 25 de abril de 1974 um grupo de jovens oficiais, todos antigos combatentes no Ultramar, agiram contra o regime" refere sublinhando que se tratou de um golpe militar sem sangue e com promessas de independência das colónias, mas demonstrando profundas divisões entre os protagonistas da mudança.

"Portugal atravessou um período de instabilidade política contínua, durante o qual os confrontos entre a esquerda e a direita deixaram o país quase ingovernável", destaca o autor do livro que considera que a entrada do país na Comunidade Económica Europeia (CEE) comprometeu Estados como Portugal (além da Grécia e Espanha) com "uma forma de capitalismo socialmente responsável" modificando a vida das populações.

Westad recorda, num vasto capítulo dedicado aos países europeus no final do século XX: "lembro-me de um agricultor português, do Alentejo empobrecido, a explicar-me, em 1988, o motivo pelo qual já não apoiava o Partido Comunista: o apoio europeu, disse ele, tornou possível a esperança de uma vida melhor".

A obra do historiador trata dos principais momentos que surgem após 1945, mas situa a origem da Guerra Fria no surgimento de dois processos fundamentais mais profundos: a transformação dos Estados Unidos e da Rússia em dois "impérios superlativos" dotados de um sentimento crescente de "missão internacional" e a "intensificação ideológica entre o capitalismo e os seus críticos".

"Os dois processos juntaram-se com a entrada norte-americana na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Revolução Russa de 1917", sublinha o investigador concluindo que a queda do Muro de Berlim (1989) não significou o fim da Guerra Fria como sistema internacional.

"O que não mudou com o fim da Guerra Fria foram os conflitos entre os ricos e os pobres nas questões internacionais" e pondo em perspetiva a situação dos países que viveram conflitos de facto refere o caso de Angola -- "um dos países mais devastados pela Guerra Fria" -- que podia ser uma das regiões mais ricas do mundo, mas onde o "grosso da população" continua a ser "desesperadamente pobre" e onde "a filha do presidente" é a mulher mais rica de África, referindo-se a Isabel dos Santos, filha do ex-chefe de Estado José Eduardo dos Santos.

O livro "A Guerra Fria -- Uma História do Mundo" (Temas e Debates, Círculo de Leitores) foi recentemente traduzido para português.

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