Especialistas internacionais debatem em Lisboa "desenvolvimento em tempos de incerteza"

O poder, a segurança, a globalização ou a sustentabilidade do planeta, numa conjuntura internacional marcada pela incerteza, estarão em debate, com especialistas internacionais e portugueses, na terceira edição da Conferência de Lisboa, que decorre na quinta e sexta-feira.

Esta edição debruça-se sobre "O Desenvolvimento em Tempos de Incerteza", tema que será debatido em seis painéis -- o Poder, a Segurança, a globalização, o Planeta, as Pessoas e a Europa -, disse à Lusa Fernando Jorge Cardoso, diretor executivo do Clube de Lisboa, que promove o evento.

O encontro, que vai decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, tem, entre os oradores, o analista de geopolítica norte-americano George Friedman; a professora britânica Mary Kaldor, autora do conceito de "guerra identitária"; o antigo vice-presidente da Comissão de Planeamento da Índia Montek Ahluwalia; o diretor de programas do Russian International Affairs Council, Ivan Timofeev; a diretora para a Europa e África do World Resources Institute Kiyyt van der Heijden; o presidente do Centro de Relações Internacionais e Desenvolvimento Sustentável (Belgrado) Vuk Jeremic; e o professor da Sciences Po (Paris) Alfredo Valladão.

A Conferência contará, na abertura, com uma intervenção do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e, no encerramento, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

"O objetivo é, de dois em dois anos, providenciarmos um grande evento em que se discutam os grandes temas internacionais, que estão relacionados com as questões do desenvolvimento global", explicou o diretor executivo do Clube de Lisboa.

Segundo Fernando Jorge Cardoso, há apenas uma regra: os debates não podem incidir sobre a agenda doméstica portuguesa.

A Conferência de Lisboa pretende "projetar Lisboa como um bom sítio para que as reflexões sejam feitas, inclusivamente reflexões mais políticas, aquilo que se chama 'paradiplomacia', que permitam que atores internacionais utilizem Lisboa como uma boa plataforma para tentar resolver a bem, de forma pacífica e diplomática, conflitos violentos", descreveu o responsável.

À margem das conferências, o Clube de Lisboa vai assinar, na sexta-feira com o g7+ um protocolo de colaboração para a realização de debates e atividades conjuntas.

O g7+, que escolheu a capital portuguesa para instalar a sua sede europeia, é uma associação de 20 países da África, América Latina e Ásia, que foram alvo de intervenções externas devido a conflitos ou situações de fragilidade, e que pretende funcionar como uma interlocutora dos parceiros internacionais.

O Clube de Lisboa, criado há um ano, reúne as instituições que promoveram as Conferências de Lisboa desde o início -- Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa; Câmara de Lisboa; Fundação Portugal-África; Instituto Marquês de Valle Flôr; ISCTE-IUL (Instituto Universitário de Lisboa); SOFID (Sociedade para o Financiamento do Desenvolvimento) e UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) -, além de várias personalidades portuguesas.

Presidida pelo antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado, a organização está aberta "à entrada de todos os que estejam interessados e que considerem que é importante o debate das questões internacionais, económicas, políticas, de segurança e ambientais, e o seu impacto sobre Portugal e a Europa", disse Fernando Jorge Cardoso.

O diretor executivo garante que o Clube de Lisboa foi criado com o intuito de funcionar "mais como uma plataforma", apoiando as atividades de entidades já existentes.

Além das Conferências, de dois em dois anos, a organização promove as "Lisbon Talks", sessões públicas de debate sobre assuntos relevantes da agenda internacional, normalmente com oradores nacionais; seminários de formação, dirigidos ao público mais jovem, além de publicações e parcerias.

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