Crise no setor do leite exige união do setor - associação

Lisboa, 12 abr 2019 (Lusa) -- A Associação dos Produtores de Leite de Portugal (APROLEP) defendeu na quinta-feira, em comunicado, que a solução da crise no setor só é possível com a união estratégica da produção, indústria e distribuição.

"A APROLEP considera que esta crise profunda e persistente só poderá ser ultrapassada se todo o setor leiteiro, produção, indústria e distribuição, for capaz de se unir para definir uma estratégia conjunta para o futuro sustentável da produção de leite em Portugal", refere um comunicado, emitido após uma reunião que a associação teve com o secretário de Estado da Agricultura e Alimentação, Luís Vieira.

A reunião surgiu após o anúncio da descida de mais um cêntimo por litro de leite pelas principais cooperativas e outros compradores, situação que preocupou os produtores.

Para a APROLEP, essa estratégia deve passar "pela transformação, valorização do leite, aproveitamento das oportunidades de exportação e partilha do valor com o produtor, através de um preço justo", e deve contar "com o empenho do Governo e de todas as forças políticas para atingir estes objetivos".

"Nos últimos 10 anos, o preço médio do leite em Portugal esteve quase sempre abaixo da média comunitária", refere a associação, acrescentando que os produtores portugueses sofreram um "prejuízo de 421 milhões de euros" comparativamente à média europeia.

O texto manifesta ainda preocupação com "a persistência dos ataques ao leite enquanto alimento, sem base científica, mas com um ativismo permanente na comunicação social e redes sociais que influenciam os cidadãos menos informados".

Na quarta-feira, os deputados do Grupo de Trabalho do Setor Leiteiro defenderam que, no contexto do Portugal 2030, é necessário desenvolver um conceito de "pagamento justo" à produção, indexando-o aos sistemas de financiamento à indústria e à distribuição.

Esta é uma das oito medidas inseridas na proposta de intervenção presente no relatório do Grupo de Trabalho do Setor Leiteiro, a que a Lusa teve acesso.

Em causa, está o facto de os produtores de leite portugueses terem recebido menos 421,5 milhões de euros do que a média dos países da União Europeia (UE), entre 2010 e 2018.

Por ano, os produtores portugueses receberam assim menos 61,5 milhões de euros do que a média dos restantes operadores da UE.

Na proposta do grupo de trabalho inclui-se ainda a coordenação de uma campanha de informação "que alerte para os benefícios do consumo do leite" e derivados, a clarificação da distinção entre o produto leite e outras bebidas, uma ação junto da distribuição, "assegurando uma correta informação ao consumidor, para os produtos lácteos", bem como a promoção de mecanismos facilitadores da livre concorrência do longo de toda a cadeia de valor.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.