Carlos Vaz Marques despede-se da Granta em Língua Portuguesa com o tema "Deus/es"

"Deus/es" é o tema do próximo número da Granta em Língua Portuguesa, que chega às livrarias no dia 26, porque "Deus existe, acreditemos ou não", como escreve Carlos Vaz Marques na introdução da revista, a última sob a sua direção.

Ao fim de cinco anos e 12 números da revista literária editada pela Tinta-da-China - dez edições em Portugal e mais duas dos dois lados do Atlântico, publicadas simultaneamente em Portugal e no Brasil -, Carlos Vaz Marques sai da direção por sua vontade, para se "dedicar a outros projetos".

O próximo número da Granta em Língua Portuguesa, o terceiro, a sair em maio de 2019, passa a ter um diretor em Portugal -- Pedro Mexia -- e um diretor no Brasil -- Gustavo Pacheco.

O escritor e crítico literário Pedro Mexia já tem um longo trabalho com a editora Tinta-da-China, na qual é responsável pela sua coleção de poesia, ao passo que Gustavo Pacheco é um escritor, tradutor e diplomata brasileiro, cujo primeiro livro, "Alguns humanos", foi publicado por esta editora.

Segundo a Tinta-da-China, "ambos acompanham de perto o trabalho da Granta-mãe, e darão continuidade ao papel desempenhado pela revista literária no espaço da língua portuguesa".

Para este último número sob a direção de Carlos Vaz Marques, o tema escolhido foi "Deus/es", um mote lançado aos autores convidados para escrever nesta edição, da mesma forma que o ilustrador André Carrilho lança, na ilustração da capa, uma escada para o céu, onde "ninguém sabe o que o espera ao subi-la".

Carlos Vaz Marques, que não acredita em Deus, sabe que ele existe, "de tanto ter lido a respeito dele", como sabe que existem Romeu e Julieta, D.Quixote e Sancho Pança, Emma Bovary e Anna Karénina, o monstro Frankenstein, o "triângulo trágico" formado por Simão Botelho, Teresa e Mariana ou o casal Bentinho e Capitu, figuras imaginárias que se tornaram "mais reais do que hordas humanas de carne e osso, de que não subsiste memória".

No 'incipt' que assina, Carlos Vaz Marques considera que os autores destas personagens -- Shakespeare, Cervantes, Flaubert, Tolstoi, Mary Shelley, Camilo e Machado de Assis - são também eles "deuses criadores", como o "autor anónimo e universal que criou o mundo ou foi criado por ele".

Citando Voltaire e a sua famosa máxima, segundo a qual "se Deus não existisse teria de ser inventado", Carlos Vaz Marques considera que "a noção de transcendência é universal".

Foi nessa linha que foi composta esta edição, para a qual Daniel Blaufuks, curador de imagem, convidou o fotógrafo português António Júlio Duarte e a fotógrafa brasileira Lúcia Koch a assinarem os ensaios fotográficos.

André da Loba ilustrou os 13 textos de ficção, reflexão e reportagem, o primeiro dos quais, de Ana Cristina Leonardo, é uma deambulação por entre citações, demonstrando que a ideia de deus é um catalisador literário.

O conto da brasileira Luisa Geisler tem orixá, pai de santo, uma gata vítima de macumba e um casal em decomposição, ao passo que a história da também brasileira Vanessa Bárbara, mais conforme ao imaginário católico, tem um padre "neo-panteísta", capaz de ver a presença de deus nos mais surpreendentes aspetos da vida.

O texto de Pedro Eiras põe o leitor face a face com um deus terrível e terreno, diferente do deus de José Gardeazabal, que é dotado de um "sentido de humor enviesado".

Isabel Rio-Novo apresenta uma 'pietá', em que o mistério da morte interpela o que há de mais misterioso na vida, da mesma forma que se apresentam misteriosos os desígnios do sexo, na crónica memorialística do contista brasileiro Sérgio Sant'Anna.

Entre os textos traduzidos, conta-se uma extensa reportagem de Susana Ferreira, uma canadiana de ascendência portuguesa, sobre as tensões religiosas no Haiti, no rescaldo do terramoto de 2010.

Desde o número anterior, publicado em maio, que a revista mudou: passou a chamar-se Granta em Língua Portuguesa (em vez de Granta Portugal), porque passou a ser publicada simultaneamente em Portugal e no Brasil, integrando autores brasileiros e do espaço lusófono.

Daniel Blaufuks é, desde então, diretor de imagem, responsável por escolher os fotógrafos e os ilustradores para cada novo número.

A periodicidade semestral mantém-se (maio e outubro), e a revista será composta por textos originais de autores lusófonos (convidados por ambos os diretores), por textos do arquivo histórico da Granta, por ilustrações originais e ensaios fotográficos.

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