Banca móvel em áreas rurais de Moçambique reduz vulnerabilidade à fome -- estudo

Lisboa, 09 mai 2019 (Lusa) -- Um estudo de investigadores da NovaSBE (Faculdade de Economia da Universidade de Lisboa) concluiu que a introdução de serviços financeiros móveis em áreas rurais de Moçambique pode ajudar a diminuir a vulnerabilidade das famílias à fome.

Cátia Batista e Pedro Vicente analisaram neste estudo o impacto da introdução de serviços financeiros através do telemóvel em áreas rurais do sul de Moçambique, concluindo que houve uma adesão relativamente elevada à banca móvel com efeitos positivos na adaptação a choques, incluindo redução dos "episódios de fome".

"Normalmente, o mecanismo que as pessoas usam para fazer face às despesas acrescidas quando há choques, como cheias ou problemas familiares, é cortar nas despesas de alimentação para fazer face a outras despesas com medicamentos ou reconstrução de casas", disse hoje à Lusa Cátia Batista.

A banca móvel surge como "um novo instrumento para receber remessas de emigrantes, para receber dinheiro que os ajuda a enfrentar estes choques", de forma fácil e rápida, permitindo que as pessoas "deixem de ter de cortar na alimentação para fazer face a estas despesas acrescidas", explicou.

Os economistas do departamento NOVAFRICA da NovaSBE avaliaram também o impacto na atividade agrícola, que registou uma diminuição do investimento.

Os resultados do estudo intitulado "O dinheiro digital está a mudar a Africa rural: evidências de uma experiência de campo" demonstram que "ao reduzir drasticamente os custos das transações associadas às remessas de migrantes, o dinheiro digital agiu como facilitador das migrações de áreas rurais para urbanas".

Segundo Cátia Batista, este foi o resultado mais surpreendente.

"Nós pensávamos que a banca móvel, ao dar a possibilidade de receberem mais remessas vindas da cidade, levaria a investir mais e o que observamos foi exatamente o oposto", revelou.

A economista e diretora científica da Nova SBE explicou que as famílias fizeram outras escolhas: em vez de investir o dinheiro na agricultura ou em negócios locais, preferiram migrar, saindo de zonas rurais mais desfavorecidas para regiões mais dinâmicas, como a capital, Maputo, onde procuram melhores empregos e oportunidades.

Cátia Batista acrescentou que a agricultura que se pratica nestas áreas é uma atividade de "subsistência que não deixa propriamente excedentes que permitam fazer algum negócio", percebendo-se, por isso, "que as pessoas escolham oportunidades de vida mais atrativas, que estão na cidade, e não nesta agricultura tradicional".

Os investigadores analisaram a introdução da banca móvel nas áreas rurais em várias vertentes: adesão à tecnologia, consumo e vulnerabilidade, remessas de emigrantes e poupanças e investimento empresarial e agricultura.

O estudo revela ainda que os níveis de adesão à tecnologia foram elevados (64% fizeram, pelo menos, uma transação no primeiro ano e 72%, três anos depois) e que não houve evolução nas poupanças.

"Observámos aumentos no número de migrantes em cada agregado familiar e nas remessas de emigrantes recebidas pelas famílias, sobretudo face a choques adversos, mas não identificámos efeitos nas poupanças", indica o documento, a que a Lusa teve acesso.

Na Africa subsaariana, só 34% dos adultos têm conta numa instituição financeira e nas áreas rurais de Moçambique o acesso a serviços financeiros é ainda mais limitado, estimando-se em 13% segundo dados da Finscope relativos ao ano de 2014.

Segundo os economistas da Nova SBE, a banca móvel abre novas oportunidades, permitindo receber dinheiro através de uma conta associada ao telemóvel, através de um agente local, fazer transferências, pagar produtos ou serviços e levantar dinheiro (junto de um agente local), sem necessidade de ter conta num banco.

O estudo baseou-se nos dados de uma amostra aleatória de 2.000 famílias detentoras de um telemóvel e residentes em zonas rurais de três províncias (Maputo, Gaza e Inhambane), com cobertura de serviço MCel, o principal operador móvel moçambicano.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.