O escultor, que foi Prémio Pessoa em 2015, teve "carta branca" para "dar uma volta no espaço" da galeria, e optou por "uma redução total" do número de obras antigas expostas.."Isso é um processo muito curioso, porque tem exatamente a ver com essa noção visual que um antiquário tem que é diferente de um galerista de arte contemporânea. Os antiquários normalmente estão muito cheios e têm muitos estímulos visuais (...) Aqui, quis exatamente o contrário, quis esvaziar tudo e concentrar cada pintura, cada escultura no vazio", explicou Rui Chafes à agência Lusa. .Para a exposição "Ausências - Rui Chafes - Diálogo com mestres antigos", as quatro salas da galeria habitualmente repletas de quadros clássicos apresentam oito obras do escultor, realizadas entre 2013 e 2016, e cinco quadros dos séculos XVI e XVII..Na primeira sala, duas colunas pretas com as dimensões do artista, "Este é o meu corpo I" e "Este é o meu corpo II" (2015), estão colocadas face ao quadro "O incêndio de Tróia", de Diogo Pereira, do século XVII, enquanto na sala ao lado as máscaras "Doce e Mortal V", "Doce e Mortal VI" e "Doce e Mortal VIII" (2016) estão afixadas em frente à pintura de uma caveira "Memento Mori" do século XVII..No outro lado da rua Ponthièvre, outra sala expõe duas esculturas suspensas "Carne Misteriosa" e "Carne Invisível" (2013), entre dois quadros de "Crucificação", um do pintor italiano Luca Cambiaso e outro da Escola Florentina do século XVII, e uma quarta sala, quase sem luz, apresenta a escultura "Murmúrio XII" (2015), perto da pintura "Agnus Dei" do século XVII e provavelmente da autoria de Josefa de Óbidos ou de seu pai, Baltazar Gomes Figueira.."Estive a escolher as obras que me pareceram que faziam um diálogo com as pinturas e também estive a escolher as pinturas. No fundo, a ideia era, desde o início, criar um diálogo com a pintura antiga. Primeiro fizemos uma escolha das pinturas que me interessavam mais para criar esse diálogo e, de acordo com as peças que eu tinha pensado, fizemos uma seleção e fomos afinando", continuou Rui Chafes..O artista afirmou que o título da exposição - "Ausências" - se explica porque "são tudo ausências", desde "a história da crucificação", às caveiras que evocam a morte, ao incêndio e à ruína, assim como à "ideia de um véu que tapa a imagem"..O galerista Philippe Mendes, que escolheu o título, acrescentou que "tudo aqui é isso", com "a ideia de esvaziar a galeria e ter poucas obras, poucas presenças", com uma seleção de quadros que têm "uma componente religiosa muito forte" e "presenças que estão a fugir ou a desaparecer" e com obras de Rui Chafes "que têm alguma coisa de volátil".."Esta exposição é uma viagem com uma componente filosófica e esta ideia de andar de um quadro para uma obra e não ter muitas coisas na apresentação ajuda mesmo a focar a atenção sobre o tema que o Rui quis dar à exposição", descreveu o galerista português residente em Paris, que se dedica à arte antiga e ofereceu um quadro da portuguesa Josefa d'Óbidos ao Museu do Louvre..A exposição vai ficar patente até 30 de junho, inserida na programação da Lusoscopia - Artistas Portugueses em Paris, uma iniciativa do Centro Cultural Camões em Paris, na qual várias galerias da capital francesa expõem, a partir desta quarta-feira, obras de artistas portugueses como Adriana Molder, Ana Léon, Arpad Szenes, Bela Silva, Jorge Martins, Jorge Molder, Manuel Cargaleiro, Maria Beatriz, Maria Helena Vieira da Silva, Maria Loura Estêvão, Michael Biberstein, Miguel Branco, Rodolphe Bouquillard e Rui Moreira..A 18 de maio, no Instituto Goethe de Paris vai ser exibido, pela primeira vez em França, o filme "Durante o fim", de João Trabulo, um documentário sobre o trabalho de Rui Chafes. .O artista, que em 2008 instalou uma escultural monumental em Champigny-sur-Marne em homenagem à emigração portuguesa, está a preparar uma nova exposição em Paris, para setembro de 2018, na delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo também agendadas exposições em Nova Iorque e na Alemanha para o ano..Nascido em Lisboa, há 50 anos, onde atualmente vive, Rui Chafes foi galardoado em 2015 com o Prémio Pessoa, em 1995 representou Portugal, juntamente com José Pedro Croft e Pedro Cabrita Reis, na 46.ª Bienal de Arte de Veneza e, em 2004, na 26.ª Bienal de S. Paulo, com um projeto conjunto com Vera Mantero. .O artista fez o curso de Escultura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, entre 1984 e 1989, e, de 1990 a 1992, estudou na Kunstakademie Düsseldorf, com Gerhard Merz. .O seu trabalho tem sido exposto em Portugal e no estrangeiro, desde meados de 1980, em várias instituições, e há dois anos apresentou a exposição antológica "O peso do paraíso", no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.