Respirar geologia na terra das minas

Quando Igor Morais se mudou para a vila alentejana de Aljustrel, pensava que ia para o fim do mundo. Mas hoje está encantado e desenvolve a sua profissão de geólogo na plenitude.

Combinámos encontro junto ao Moinho do Maralhas. Daqui avista-se, a norte, a vila de Aljustrel. Do outro lado do moinho está a mina de Aljustrel. O local não é inocente: Igor Morais, de 32 anos, vive aqui desde 2016 e ganha a vida a estudar as profundezas da terra. Natural de Montemor-o-Velho, perto de Coimbra, conta-nos que "enquanto estava a estudar" sempre gostou "muito de recursos minerais". Por isso acabou por optar pela licenciatura e o mestrado em Geologia. O contacto com a região deu-se no concelho vizinho de Castro Verde, onde opera a mina de Neves Corvo. "Na área da geologia não é fácil encontrar emprego: ou se vai para os municípios ou se segue para o setor mineiro", explica o geólogo. Por essa razão, quando terminou o estágio profissional, nem hesitou em agarrar a oportunidade de trabalhar ao abrigo de uma bolsa de investigação para um projeto que o Laboratório Nacional de Energia e Geologia está a conduzir no Alentejo.

Este é o laboratório estatal que desenvolve investigação nas áreas da energia e da geologia, sendo que estamos numa região de grande tradição mineira. As minas de Aljustrel assentam sobre a Faixa Piritosa Ibérica. Uma vasta área geográfica do sul da Península Ibérica, com 250 quilómetros de comprimento e uma largura que vai oscilando entre os 30 e os 50 quilómetros.

Estudos geológicos apontam para que esta faixa se inicie no território de Alcácer do Sal e se estenda até Sevilha. Nesta faixa estão a operar duas das três minas atualmente em funcionamento em território português. Mas existe um registo de atividade de mineração que remonta à Pré-História. Arqueólogos têm descoberto vários vestígios de aldeias mineiras romanas. Estes mineiros estariam espalhados por esta região em busca de ouro, prata e cobre. Existe, contudo, uma mina que se destaca: a mina de São Domingos, na zona de Mértola, a 80 quilómetros desde ponto e que tem um registo de longevidade único. Funcionou na época da ocupação romana, mas teve uma outra vida na era moderna. Durante mais de cem anos operou ininterruptamente até se ter esgotado o minério em 1965. Curiosamente, nesta mina trabalhou o bisavô de Igor Morais.

Este é um território fértil para quem estuda a terra e para o laboratório onde Igor trabalha. O jovem geólogo vê-se obrigado "a passar grandes temporadas no campo" onde desenvolve vários trabalhos de investigação e cartografia do território. "O Alentejo é bastante rico. Aqui respira-se geologia um pouco por todo o lado", explica. Para ele e para outros geólogos da sua idade, que vêm para Aljustrel, também contribui bastante o facto de esta ser uma comunidade habituada a ver chegar pessoas para a mina, o que torna as pessoas bastante hospitaleiras.

Mas não foi só o minério de Aljustrel que lhe mudou a vida. Aqui conheceu a mulher e, há dois anos, tiveram um filho. Apaixonado pela terra que viu nascer o filho, confessa-se "fascinado pelos tons que a natureza" da região oferece. Uma paleta de cores muito distinta da que se encontra na natureza da região centro, onde cresceu, e do rio Mondego, de que diz "sentir muita saudade".

Apesar de ser um sítio bastante tranquilo, houve um outro aspeto que o surpreendeu na vila alentejana: a intensidade da vida social: "Quando para aqui vim achava que vinha para o fim do mundo. Mas saiu-me o tiro pela culatra." Confessa-se impressionado com a vida cultural de Aljustrel, muito dinamizada pela câmara municipal. À sombra das oliveiras, em redor do moinho do Maralhas, que vigia Aljustrel, de um lado e do outro, remata em jeito de desabafo: "Gostava de ficar aqui, tenho uma situação profissional estável, gosto das pessoas e gostava de ficar aqui."

Aljustrel


Município português que pertence ao distrito de Beja, na região do Sul de Portugal. Aljustrel é bastante conhecida nacional e internacionalmente pelas suas minas, que são Património Industrial Mineiro e Geológico, e também pelo seu Santuário de Nossa Senhora do Castelo.

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