Pedrógão Grande. Memorial às vítimas dos incêndios deve estar pronto em junho

Já começaram os trabalhos de uma obra que vai custar 1,8 milhões de euros. O novo autarca de Pedrógão Grande preferia um monumento menos dispendioso para aplicar o investimento na economia dos concelhos atingidos pelo fogo de 2017.

O próximo 17 de junho deverá ser assinalado pela inauguração do Memorial às Vítimas dos Incêndios de Pedrógão Grande, uma intervenção que custará 1,8 milhões de euros e está a cargo das Infraestruturas de Portugal (IP). A obra foi consignada a 13 de setembro, pelo valor de 1 794 761,91 euros, e tem um prazo de execução de 300 dias, estando prevista a conclusão até dia 10 de junho de 2022, confirmou ao DN fonte da IP.

De acordo com o anúncio da empreitada publicado em Diário da República a 10 de fevereiro, a obra, a executar através do orçamento da empresa, prevê "a construção do memorial, os acessos rodoviários, que inclui uma zona de inversão de marcha para circulação proveniente de sul e renovação da paisagem marginal da EN [estrada nacional] 236-1", afirmou na ocasião uma fonte oficial da IP, em resposta à agência Lusa.

Ao longo de cerca de dois quilómetros daquela estrada nacional, onde morreram muitas das 66 vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande, vão ser ainda "plantadas um conjunto de diferentes espécies arbóreas autóctones". No entanto, a maioria do investimento (cerca de 1,4 milhões de euros) será aplicado na construção do memorial. O projeto é da autoria do arquiteto Eduardo Souto Moura e será constituído por uma balsa de água ligada a uma fonte, simbolizando a vida e o nascimento. "No lugar que ardeu é preciso encontrar água, água de reserva, para futuros incêndios. A poesia pode vir a seguir", disse ao DN o autor do projeto, na ocasião.

Um custo "exagerado"

Nas aldeias que em junho de 2017 foram varridas pelo fogo, as opiniões dividem-se. Mas só em surdina se comenta tratar-se de "um valor exagerado", numa região que continua abandonada à sua sorte. Em setembro, o poder autárquico mudou de mãos. O novo presidente da Câmara de Pedrógão, António José Lopes (PSD), disse ao DN estar perante "um memorial nobre, que dignifica e respeita a memória das vítimas". Contudo, considera que "havia certamente outras formas de o fazer". "Podia ter sido assumida a construção de um memorial de menor dimensão e beneficiando diretamente estes concelhos com a aplicação de investimento no apoio às economias locais. Porém, a mais valia intelectual da obra poderá dar frutos a médio e longo prazo, se aceitarmos a existência de mercados atentos a obras cuja conceção intelectual é extraordinária", acrescentou.

Os eucaliptos voltaram a crescer. Quatro anos e meio depois, a floresta é outra vez verde, qual barril de pólvora se o acaso trouxer um dia como aquele 17 de junho, uma trovoada seca, um calor infernal, um vento de morte.

Nos três concelhos mais afetados pelo fogo, há muito que as corporações de bombeiros estavam habituadas a ver os montes arder. Porque há muito que a desertificação deixara marcas, que os terrenos estavam em pousio, a mata ao abandono. Só que nenhum fora tão grave como aquele, que encurralou 47 pessoas na estrada nacional 236, que liga Castanheira de Pêra ao IC8. Ali morreu a maioria das vítimas, num total de 66.

O resto sucumbiu em cruzamentos ou entroncamentos ( todos assinalados por coroas de flores de plástico), ou quando fugia das chamas que galopavam entre aldeias e lugares. Num deles, junto ao corte para Vilas de Pedro, um chafariz e um pequeno parque de merendas serão agora engolidos pelo lago artificial e a fonte, de onde há de jorrar água continuamente. A mesma que faltou em tantos pontos dos concelhos de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, entre o início da tarde e o princípio da noite de 17 de junho de 2017.

Era um "projeto pro bono"

Quando o memorial começou a ser pensado ainda cheirava a fumo. Dina Duarte, que hoje preside à da AVIPG (Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande), secundava então Nádia Piazza na direção. Não tem a certeza, mas crê que seria novembro ou dezembro quando se falou a primeira vez do assunto. O desafio a Souto Moura aconteceu naturalmente: uma das vítimas do fogo na estrada 236 era funcionária do seu gabinete. Regressava com a família de um dia na Praia das Rocas, em Castanheira de Pêra, quando foi apanhada pelo fogo.

"Ele aceitou fazer o projeto pro bono", recorda Dina ao DN, que entretanto se afastaria da direção e só voltaria há dois anos, quando houve eleições. Agora, foi de novo reeleita para novo mandato. E, nessa altura, o projeto já fora aprovado pelos familiares das vítimas, em assembleia geral. A presidente da AVIPG sublinha que nunca a associação foi confrontada com valores, mas recusa pronunciar-se sobre o montante - que aos olhos de muitos é avultado. "Eu, pessoalmente, não perdi nenhum familiar direto no fogo, mas alguns membros destas associações perderam os pais, filhos, irmãos, companheiros. É a vontade deles que está aqui em causa. Pedem com isto que se respeite a memória dos que partiram, e também dos que sobreviveram, alguns com imensas mazelas", afirma ao DN a presidente da direção.

Além das 66 vítimas e dos 250 feridos, os fogos destruíram cerca de 500 casas e 50 empresas. Mais de dois terços das vítimas mortais (47 pessoas) seguiam em viaturas e ficaram cercadas pelas chamas na Estrada Nacional 236-1, entre Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, no interior norte do distrito de Leiria, ou em acessos àquela via. É precisamente a meio desse trajeto que nascerá o memorial.

dnot@dn.pt

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