No Sardoal sempre de olhos na estrada

A pandemia empurrou Pedro e Luísa da Grande Lisboa para o interior do país. Mas na pequena povoação de Monte Cimeiro a adrenalina do trânsito da cidade entra-lhes pela sala dentro.

A moto de grande cilindrada está encostada, ali ao fundo da garagem, entre um monte de palha e uma ovelha que bebe água. Era o veículo que antes da pandemia Pedro Alves e a mulher Luísa Grácio usavam para os passeios de domingo entre a Serra de Sintra e Colares: "Começávamos ali na Casa do Preto, onde nos juntávamos com o resto da malta, e depois era aproveitar as curvas", explica Pedro. O gosto de estar com os amigos, aliado à liberdade de andar de moto, eram parte do modo de estar do casal, ambos membros ativos do Grupo Motards do Ocidente, um motoclube no concelho de Sintra.

Para Luísa, além da convivência que proporcionavam, os passeios de mota eram uma forma conhecer o país. Contudo, a professora do ensino básico sempre sonhou com o dia em que pudesse voltar a viver no Monte Cimeiro, uma pequena povoação no Sardoal, de onde é natural. Mas para Pedro, filho de Oeiras e a trabalhar como gestor de frota de uma empresa de reboques a operar na região de Lisboa, Sintra e Cascais, a vida só era concebida entre as curvas de Sintra e a linha junto ao mar na marginal. Mas isso foi antes da pandemia de covid-19. E antes de terem sido infetados pela doença.

Em outubro, o casal acusou positivo nos testes à covid-19, engrossando o número de infetados em Portugal. Foi só perto do final de dezembro que Pedro conseguiu voltar a testar negativo. Mas, para Luísa, o caminho foi ainda mais longo. A viver confinada num apartamento na linha de Sintra, via o seu estado de saúde a deteriorar-se diariamente e foi com autorização médica que conseguiu permissão para se mudar para a casa de família, isolada numa colina na terra natal. Já o casal tinha decidido ficar por Monte Cimeiro quando, face ao descontrole no número de infetados, o país foi obrigado a entrar em novo confinamento.

Com a melhoria do estado de saúde de Luísa e a concordância dos responsáveis pela empresa de reboques, Pedro conseguiu autorização para trabalhar remotamente. Uma decisão que, como explica, "muito provavelmente, antes da pandemia, não seria possível". A empresa acedeu ao teletrabalho numa profissão que exige rapidez, prontidão de resposta e "uma boa ligação à internet, o que aqui é mais difícil". O acesso às redes de telemóvel e internet nesta região é especialmente penoso. "É um problema no qual nunca tinha pensado, porque onde vivíamos a internet é tipo água, basta abrir a torneira", comenta Pedro.

Da varanda da nova casa é possível avistar toda a povoação que é rica nos silêncios que a natureza oferece. Escutam-se apenas alguns pássaros, um rebanho ao longe e uns vizinhos que conversam no campo em frente. Em redor da casa surge agora um pomar onde vagueiam umas ovelhas. São "animais de estimação", alimentados pelo casal com muito carinho e leite em pó preparado num robot de cozinha. Ao lado, na sala, está montado um autêntico centro de comando, com três grandes monitores que mostram, em tempo real, as estradas, ocorrências e as localizações dos reboques. Existe aqui uma adrenalina que contrasta com o ambiente fora da sala. É o mesmo tipo de adrenalina que Pedro sente quando se aproxima da capital e começa a entrar no trânsito. "É essencial", explica. Já para Luísa, ir a Lisboa é um tormento: "Quando na autoestrada passamos Aveiras e começo a ver o trânsito, só me apetece vir embora".

A decisão de ficar no Sardoal está tomada e, agora, aguardam que Luísa consiga colocação numa escola da região pois "daqui já não saem". Quando a professora contou a um vizinho, amigo de infância, da sua decisão, este exclamou um "até que enfim!". E isso resume muito o sentimento que os invade. "Aqui em Monte Cimeiro não estamos numa aldeia, estamos em família", contam ao DN.

Sardoal

A vila (foi elevada a esta categoria em 1531, por D. João III) é sede de município (dividido em quatro fregesias) e pertence ao distrito de Santarém, na região do Ribatejo.

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