Levantado do Chão. Siga os passos de João Mau-Tempo pela Lisboa de 1940

Junto à oliveira do escritor José Saramago, em frente à Casa dos Bicos, começa o percurso da personagem desta obra pela capital até chegar à prisão do Aljube.

" Caro viajante seja bem-vindo, ate bem os sapatos e caminhe até à oliveira. Levante um pé à vez e caminhe neste chão. Falemos de Saramago, de Levantado do Chão, pois claro." Esta é a primeira frase que se ouve através dos auscultadores, depois de o telemóvel ler o código QR que se encontra no poste de luz, perto da oliveira de José Saramago, em frente da Casa dos Bicos, em Lisboa.

Sim, é preciso um telemóvel, mas também internet e um calçado confortável para fazer este roteiro literário, um projeto artístico da RiseUp, que procura compreender a obra Levantado do Chão, de José Saramago. Este audiowalk leva o viajante a andar por Lisboa para seguir os passos de João Mau-Tempo, a personagem principal desta obra do Prémio Nobel da Literatura de 1998.

O percurso leva as pessoas a conhecerem Lisboa pelo olhar do autor. Este roteiro não se define como um guia turístico, mas sim como um espetáculo de teatro, que inclui atores, metáforas e músicas originais, muitas delas compostas pelo diretor artístico Carlos Marques. O audiowalk está disponível em português e inglês, sendo Natália Luíza a voz que nos guia durante a caminhada na versão portuguesa e Ana Sofia Paiva na versão em inglês. O percurso é gratuito e tem a duração de aproximadamente 45 minutos, com 25 minutos de áudio.

No entanto, as músicas na versão inglesa não são traduzidas, em vez disso, no final de cada canção, é feito um pequeno resumo do significado da letra.

"Quero que as pessoas fiquem com vontade de ler o livro, afinal isto não substitui a leitura da obra. Vivemos tempos tão rápidos e esta história parece tão distante. É preciso projetos como estes para relembrar que os mecanismos de opressão e a manipulação de ideias existem", afirmou Carlos Marques ao DN.

Levantado do Chão está dividido em dois roteiros diferentes: um em Lisboa com quatro faixas e outro em Montemor-o-Novo, onde a ação da obra tem maioritariamente lugar. Contudo, a impossibilidade da concretização de oito horas de espetáculo na praça de touros de Montemor-o-Novo com uma leitura ao vivo e atores, levou à criação deste roteiro. "Criei este projeto para substituir o espetáculo na praça de touros. Este áudio está disponível e o serviço é gratuito através da internet, na nossa página. Os atores que iam dar voz a esse espetáculo continuaram connosco", explica o diretor artístico.

O roteiro é, na prática, o percurso do João Mau-Tempo, um alentejano que chega a Lisboa para ser interrogado e torturado na prisão do Aljube. "Aqui em Lisboa, nós colocamos as pessoas como se fossem o João Mau-Tempo do livro. A ideia é também criar uma distopia entre o que é a realidade de hoje - com os tuck tuck e o turismo -, levando as pessoas , ao mesmo tempo, a voltarem a uma cidade dos anos de 1940. Através do áudio conseguimos estar em duas realidades ao mesmo tempo", explicou Carlos Marques.

Depois de fazer a leitura do código QR, de frente para a Oliveira, onde nas raízes estão as cinzas de Saramago, a primeira faixa dedica-se à apresentação do livro, do próprio passeio e do autor. A voz de Natália Luíza leva o utilizador a ir em direção ao rio, atravessar o Largo José Saramago, passar o Terreiro do Paço e a dirigir-se à Praça do Comércio. Uma música original de Carlos Marques sobre a história do livro e sobre a resistência acompanha essa caminhada.

A história da personagem só começa na segunda faixa, onde é relatada a chegada de João Mau-Tempo a Lisboa, ao Terreiro do Paço, depois de ter passado pela prisão de Caxias. "É o corpo tão soberano senhor que João Mau-Tempo chegou a dormitar ao embalo vagaroso da carruagem e do bater do rodado na junção dos carris", pode ouvir-se pelos auscultadores.

No Terreiro do Paço as indicações são claras: cortar à direita na Rua de São Julião, depois andar até à Rua da Padaria, " sempre a subir" até ao largo de Santo António da Sé. O viajante é acompanhado por uma música ao som do violino.

A terceira faixa continua com as indicações, seguindo o caminho de João Mau-Tempo com os guardas até à prisão. Novamente a subir a rua até ao Museu do Aljube, que outrora era a prisão onde a personagem foi torturada durante seis meses. A entrada no museu é o passo seguinte, sendo que quem está a fazer o percurso poderá entrar gratuitamente, iniciando uma visita que começa de cima (piso 3) para baixo.

É trazido à memória o que naquele local aconteceu durante a ditadura. É possível observar a recreação das pequenas celas dos antigos presos políticos. Por exemplo, Germano Santos Vidigal, uma personagem verídica que esteve presa no Aljube, também é mencionada na obra de Saramago. "O museu pretende manter a história daquilo que aconteceu aqui", garantiu Carlos Marques.

A última faixa convida o ouvinte a encontrar um lugar calmo para terminar o roteiro. É a oportunidade de ouvir como foi a saída de João Mau-Tempo da prisão do Aljube, como foi o encontro com Ricardo Reis, médico e viajante, antes de voltar para Montemor-o-Novo. "Encontramo-nos em Montemor junto à praça de touros." Assim termina a última faixa, convidando o ouvinte a visitar a cidade do protagonista do livro. O roteiro da cidade alentejana, igualmente gratuito, conta com quinze faixas e 65 minutos de áudio.

mariana.goncalves@dn.pt

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