Investigador português quer diminuir conflitos entre pessoas e lobos

Ajudar a acabar com mitos e comprovar como este animal até pode ser uma mais-valia para a produção agrícola são outros dos objetivos do estudo de Dário Hipólito.

Dário Hipólito é aluno de doutoramento da Universidade de Aveiro e está a estudar a coexistência entre o lobo-ibérico e as pessoas na região de Lafões, na zona hidrográfica do rio Vouga, para perceber melhor quais são os problemas causados pela presença deste animal naquela zona, relacionados sobretudo com ataques a gado. E ao mesmo tempo tentar desmontar mitos em torno deste animal: "Os lobos têm medo e fogem, e, por isso, não há risco de as pessoas serem atacadas por lobos. Há muitas histórias, que ouviam em crianças, mas não passam de mitos que passaram de geração em geração, muitas das vezes para manter as crianças junto das residências."

Natural de Sintra, desde 2016 que Dário Hipólito é bolseiro de investigação em Aveiro e desde 2020 que trabalha no doutoramento no departamento de Biologia. Explica ao DN que o facto de se dedicar ao estudo do lobo-ibérico não se deve a um fascínio particular por este animal mas sim por "todas as espécies selvagens, principalmente mamíferos e em particular carnívoros, tanto de médio como grande porte".

Com oito ações em diferentes concelhos da região de Lafões e Montemuro (São Pedro do Sul, Castro Daire, Cinfães, Resende, Lamego, Arouca e Vale de Cambra), "em áreas onde o lobo está mais presente e os conflitos acabam por ser maiores", Dário Hipólito acrescenta que o objetivo é chegar a outras zonas do país. Os dados que recolher no terreno servirão para "tentar arranjar uma estratégia, seja local ou mais regional, para trabalhar numa solução que ajude as pessoas". Até porque, muitas das vezes, os maiores problemas não são causados pelos lobos mas sim por outros animais, como os javalis, capazes de destruir colheitas com a sua ação.

O investigador lembra que, nesses casos, o lobo até se pode converter num apoio à atividade agrícola. Se os rebanhos das pessoas estiverem bem protegidos, "o lobo acabará por ajudar ao fazer uma pressão maior sobre as populações de javali, podendo no futuro diminuir o impacto deste animal na agricultura e na própria criação de gado", considera o investigador.

Atualmente, a população de lobos-ibéricos em Portugal encontra-se nas regiões a norte e a sul do rio Douro. Está em curso, desde 2019, um Censo cujos resultados vão ser conhecidos ao longo deste ano. Segundo o último Censo, realizado em 2002-2003, havia cerca de 300 lobos-ibéricos e 60 alcateias em Portugal. Os lobos são um animal que precisa de um habitat com grande extensão, que tem diminuído ao longo dos tempos face ao aumento das áreas urbanas, da rede de infraestruturas e a intensificação da atividade agrícola e pastorícia.

Dário Hipólito considera, no entanto, que não faz sentido criar para os lobos-ibéricos um programa semelhante ao que foi pensado para os linces-ibéricos, no Baixo Alentejo, e que tão bons resultados produziu, aumentando a população da espécie - os animais são criados em cativeiro e depois são soltos em meio natural para os lobos-ibéricos. "O lobo poderá ter capacidade para se expandir mas essa expansão será natural, sem quaisquer programas de criação em cativeiro, não há necessidade e não é de todo desejável", disse o investigador ao DN. com Lusa

sara.a.santos@dn.pt

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