Histórico Centro Comercial do Bonfim fecha portas. "Não há data para indemnizações"

Os proprietários assinaram um termo legal onde se comprometem a pagar indemnizações assim que o espaço for vendido. Para os lojistas sair é "inevitável", sem indemnizações à vista num futuro próximo e com despesas acrescidas. Desde janeiro que, além das rendas e custos correntes das lojas, pagavam também todas as despesas do centro.

Noutros tempos o Centro Comercial do Bonfim estaria cheio de famílias e jovens setubalenses que ali marcavam ponto de encontro ao fim-de-semana, para tomar um café e ver as novidades da moda ou da tecnologia. Hoje fechará, de vez, as portas. Abandonadas, pouco a pouco, nos últimos meses, as lojas ficaram de prateleiras vazias e estores corridos, depois de cerca de 50 anos de atividade. As indemnizações compensatórias, ninguém sabe quando vai receber.

Naquela que um dia foi a entrada principal do espaço, inaugurado no final da década de 1970, antes das Amoreiras, em Lisboa, uma simples folha branca contém a informação do desfecho do Centro Comercial do Bonfim. Os proprietários decidiram encerrar as portas devido à "insustentabilidade do negócio" e "dificuldades financeiras".

Nos corredores do centro, momentos antes do fim, os últimos sete lojistas de um grupo que tinha 30 falam numa gestão em que "a manutenção e renovação gradual do espaço nunca foi uma prioridade, até tudo ficar decadente".

Em novembro de 2021, os lojistas receberam uma carta registada da empresa Célebres Assuntos, que gere o centro comercial, a comunicar a caducidade dos contratos de subarrendamento e estabelecendo que as lojas deviam ser entregues "devolutas de bens e pessoas" até dia 30 de dezembro. "Esta imposição deixava 30 inquilinos, alguns com 40 anos de portas abertas, com apenas um mês de pré-aviso, quando por lei devem ser dois", recorda Maria Cadimas, que manteve um café-restaurante aberto no Centro do Bonfim durante 36 anos.

"Tentamos fazer um acordo com os proprietários, mas não foi possível, então colocamos uma providência cautelar no Tribunal de Setúbal contra o encerramento do centro até serem cumpridas as condições mínimas e pagas indemnizações compensatórias".

Em abril a justiça deu razão aos lojistas. Os proprietários do Centro Comercial do Bonfim seriam responsáveis pela manutenção do espaço, desde o pagamento da luz e água, até à limpeza, segurança, abertura e encerramento de portas, enquanto os lojistas ali se mantivessem, de portas abertas, à espera do pagamento de indemnizações.

"Os meses passaram e os proprietários nada fizeram pela manutenção do centro. As contas, que já estavam nas costas dos lojistas desde janeiro, assim permaneceram até ao fim", conta Maria Cadimas.

A saída é feita a contra-gosto, "mas que se pode fazer mais?", questiona a lojista. Afinal, "os processos judiciais demoram muito tempo e ninguém conseguia arrastar mais tanta incerteza, então as portas foram-se fechando".

Sobre o acordo e as indemnizações "o caso é mais complexo", alerta Cassiano Santos. Trabalhou a vida toda no café da família no Centro do Bonfim, mais de 40 anos, e acabou por ceder, junto com os últimos sete lojistas, a um acordo que "troca uma incerteza por outra".

Para não ficarem presos ao Bonfim e porque muitos lojistas já tinham encontrado novas lojas no Centro Comercial de S. Julião, "foi assinado um termo legal, no qual os proprietários se comprometem a pagar indemnizações assim que o centro comercial for vendido, o que ninguém sabe quando vai acontecer", explica ao DN.

Clara Leal, proprietária da ourivesaria onde viu "filas enormes em tantas vésperas de Natal", e André Lopes, que vai recordar sempre quando "nos bons tempos do Bonfim se vendiam 50 telemóveis por dia", fazem parte do grupo que encontrou um lugar em S. Julião. Dizem que "foi necessário seguir em frente" embora tenham a certeza que "com uma boa ideia seria possível recuperar o Centro Comercial do Bonfim, no lugar de vender para abrir mais uma megaloja de variedades".

Até ao final desta semana, segundo Maria Cadimas e Cassiano Santos tomaram conhecimento, o Centro Comercial do Bonfim ainda não estava vendido. Sobre o que virá a nascer naquele espaço, "são vários os boatos que envolvem o destino do centro, desde um supermercado, a uma megaloja, ou um restaurante. Mas, nada se confirmou". O DN tentou entrar em contacto com os proprietários, mas, até ao fecho desta edição, não foi possível obter resposta.

Para Cassiano Santos as respostas avulsas já não importam, "o que devia ter sido feito pelo Centro do Bonfim, em pleno centro de Setúbal, devia ter acontecido há muitos anos, com estratégia, porque espaços como este só são sustentáveis se tiverem serviços a funcionar lado-a-lado com o comércio local".

Lugar de encontros e histórias setubalenses

Patrícia Henriques frequentou o Centro Comercial do Bonfim durante mais de 40 anos. "Era o lugar onde as famílias de Setúbal passeavam ao domingo. Um ponto de encontro, com lojas muito movimentadas", lembra a setubalense, sobre a época em que passeava com os pais no Bonfim, todos os domingos, acrescentando: "Este desfecho é lamentável, num espaço que tem grande potencial e está bem localizado no centro da cidade". Acredita que "seria possível revitalizar o conceito do centro comercial e voltar a vê-lo cheio". Até porque "é fácil imaginar como seriam as épocas especiais no Centro Comercial do Bonfim, ao estilo dos anos 80 e 90, com muitas luzes e fitas coloridas".

Nos últimos anos o brilho desapareceu, os corredores estavam cinzentos e às vésperas do fecho ficaram ainda mais escuros. Com estores corridos e prateleiras vazias, as 50 lojas foram fechando pouco a pouco. "Ficaram uns sobreviventes da velha guarda", diz Jacinta Marques sobre o que considera ser "a condenação inevitável de todo o comércio local".

Aos 82 anos, Jacinta não perde só um local próximo de casa onde há mais de 40 anos tomava um café de manhã ou um lanche à tarde: "Perdem-se amizades da vida inteira que impediam a solidão de chegar na velhice". E não é tudo. "Fica esquecida a identidade dos bairros, para dar lugar a grandes superfícies comerciais, onde ninguém conhece a história da cidade e das pessoas", conclui.

dnot@dn.pt

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