Estação Fluvial Sul e Sueste reabre 90 anos depois da inauguração

O edifício sofreu uma reabilitação profunda conduzida por Ana Costa, neta de Cotinelli Telmo, o homem que projetou a estação inaugurada em 1932. Os trabalhos demoraram mais que o previsto, mas foram mantidos os traços originais.

Com a estrutura de contenção sísmica renovada, de cara lavada e com novas valências, o edifício da Estação Fluvial Sul e Sueste, inaugurado a 23 de maio de 1932, abre este sábado. O terminal de atividade marítimo-turística passa a acolher as bilheteiras de empresas do setor, um espaço de restauração com esplanada voltada para o rio e também o Centro Tejo, espaço da Associação Turismo de Lisboa (ATL) que promove a oferta cultural e turística dos municípios ribeirinhos.

As obras de restauração e reabilitação da estação foram aprovadas pelo executivo camarário em 2018, três anos depois de terem começado os trabalhos na extensão de requalificação da frente ribeirinha (entre o Cais do Sodré e o Campo das Cebolas, incluindo a zona do novo terminal de cruzeiros desenhado por Carrilho da Graça) e três meses depois da data prevista para o fim das obras, em finais de 2017.

A empreitada deveria ter ficado concluída no segundo semestre de 2019 mas o avançado estado de degradação geral do edifício fez com que as acabassem por demorar mais do que o previsto, como explicou Ana Costa, autora do projeto, ao DN. O trabalho do seu gabinete de arquitetura começou no edifício do lado, onde atualmente funciona o Terminal Fluvial do Terreiro do Paço, um interface com a estação do metro.

"O primeiro desafio foi resolver um problema de desenho da reabilitação da sala de bagagens do Cottinelli Telmo - que é o edifício ao lado - para integrar o grande átrio da estação do metropolitano", explica. Depois dessa intervenção, "a degradação no edifício principal ainda era maior, sobretudo na parte da estrutura e a contenção estrutural do edifício obrigou a muito mais trabalho do que aquilo que se imaginava". Os danos estruturais obrigaram à contratação de uma equipa de engenharia especializada para "resolver todas as necessidades de contenção sísmica e de reestruturação do edificado sem o desmantelar completamente".

Um projeto familiar

Um trabalho árduo e moroso, que implicou "um reforço estrutural delicado, quase cirúrgico para se manter a escala e as proporções do edifício", detalha. "Chegou a uma altura em que estava praticamente no osso e eu vi jeitos de não nos aguentarmos de pé", confidencia a arquiteta.

A preocupação de Ana Costa com as fundações e as paredes da estação ia muito para além das razões estritamente profissionais. É que a arquiteta é neta de Cottinelli Telmo, o projetista do edifício inaugurado em 1932, e fala com visível carinho do trabalho do avô. "É uma obra que tem para mim uma história também pessoal. Essa carga emocional e familiar também teve algum significado no trabalho que foi feito aqui", conta. Para além do desenho original da autoria do avô, este projeto reflete também a relação de trabalho que teve com o pai, Daciano da Costa.

"Quando o projeto começou foi entregue na altura ao atelier do meu pai e eu fazia parte dessa equipa", conta Ana Costa, revelando que foi um dos primeiros projetos em que trabalhou, na altura, como jovem arquiteta. "Tem essa carga. Sem querer ser sentimental, não posso deixar de dizer que não me sinto sozinha, como a autora disto. É algo que tem um lastro de mais de 90 anos e, no fundo, é quase um projeto familiar", frisou.

Reabilitar sem alterar

O icónico edifício modernista de Cottinelli Telmo apresentou vários desafios à reabilitação projetada, com o objetivo de se manter fiel ao desenho original. O primeiro foi manter a forma distintiva da estação baseada numa "malha de pilares organizada numa métrica quadricular de cobertura, com grandes aberturas de claraboias", tendo em conta a fragilidade estrutural em que o edifício se encontrava. "Não podíamos mudar a configuração dos pilares, não podíamos engordá-los, não podíamos mudar a cobertura, para poder manter viva essa razão de ser do edifício", refere a arquiteta.

Outro dos desafios, foi respeitar a questão funcional das bilheteiras - outra das razões de ser do edifício, que nasceu para permitir a ligação ferroviária de Lisboa ao Alentejo e ao Algarve. Era dali que partiam os barcos para o Barreiro, onde depois se apanhava o comboio para diversos pontos no sul e sueste do país, regiões que acabaram por dar o nome à estação. A gare fluvial foi desativada em 2011 e o projeto de reabilitação chegou a ter várias versões ao longo dos anos - foi equacionada a sua transformação numa Loja do Cidadão.

Atualmente, vai ser um espaço dedicado a barcos para passeios turísticos e os locais de venda de bilhetes continuam a ser necessários. "As bilheteiras dos anos 60 eram umas grandes aberturas com uns envidraçados, que não acompanhavam a escala e a intenção do projeto original", descreve Ana Costa. "O que nós fizemos foi ir buscar os desenhos originais de Cottinelli Telmo - com bilheteiras em madeira - e perceber como é que se poderia dar uma demão de modernização." E são agora mais discretas do que já foram, com janelas mais pequenas, para cumprir o objetivo de as "fazer desaparecer" e não serem protagonistas no espaço do átrio da estação como chegaram a ser no passado.

Azulejos restaurados

Para além das bilheteiras, foi também necessário remover acrescentos que se foram fazendo ao edifício ao longo dos anos com o objetivo de repor elementos que faziam parte do projeto inicial, desenhado em 1929. Os painéis de azulejos distintivos do átrio principal da estação, com os brasões das cidades para onde dali se podia partir, foram restaurados e mantidos, podendo agora ser apreciados a uma nova luz. "Todos os frisos dos azulejos, estão iluminados discretamente por uma linha LED que vai 'varrer com luz' estes painéis de forma muito discreta", descreve Ana Costa.

Apesar de serem os mais conhecidos, estes não são os únicos painéis de azulejos da estação. As salas de espera da primeira e segunda classes eram também forradas a azulejos que haviam sido retirados e agora foram recolocados. "Tivemos a ajuda de pessoas especializadas no restauro de azulejos porque não é tarefa fácil. Mas também se percebeu que faltavam muitos azulejos, sobretudo numa das salas, que não era, felizmente, a sala de espera da primeira classe que está neste momento completa", refere a arquiteta. Assim, essa sala pode ser apreciada por todos os que visitem a cafetaria: "Está praticamente com todos os azulejos que tinha na altura."

Detalhes recuperados

Já os painéis da antiga sala de espera da segunda classe - agora integrada na área onde está instalado o Centro Tejo - estavam incompletos e "a opção foi manterem-se apenas duas das paredes e assumir isso, em vez de estar a reproduzir integralmente uma parede".

Os azulejos são um dos elementos distintivos do edifício que Ana Costa descreve como "uma interpretação muito própria de Cottinelli Telmo dessa linguagem" mas não são os únicos. "Na época foi um grande desafio fazer um edifício com uma estrutura de cimento armado aqui em Lisboa com todas as críticas possíveis e imaginárias", conta. "Foi importante estar desviado do Terreiro do Paço porque havia a ideia de que iria competir com a arquitetura pombalina" e foi para se afastar ainda mais de uma possível "competição" que o avô Cottinelli Telmo terá optado por "um edifício muito depurado segundo os padrões da altura porque este edifício tem bastante decoração", considera.

E de todos esses elementos decorativos, qual destaca? "Destaco um detalhe: os copos de luz em mármore", responde. "Que já não existiam há muito tempo e que nós descobrimos nos desenhos e nas fotografias da inauguração da estação. Tivemos o cuidado de os redesenhar integrando iluminação LED e a iluminação de emergência", explica, acrescentando que "não foi fácil, mas era essencial repor esses elementos que davam de novo esse toque Art Déco que se tinha perdido".

Após a reabilitação, Ana Costa considera que o edifício está mais perto do desenho inicial, mas sem se ter afastado da sua função original. "Os edifícios têm de resistir às demãos da época e dos tempos que se vivem - têm de ter patine, mas têm de absorver as novas funções que para eles vêm. Neste caso, felizmente, continua a ser um grande edifício de passagem. Uma porta de entrada em Lisboa, onde se faz a passagem do rio para a cidade", caracteriza.

"Essa viagem rio-terra, que também foi muito festejada na inauguração de há 90 anos" vai continuar a ser possível, também porque a envolvente da estação foi transformada numa área pedonal mais de acordo com as fachadas do edifício, um "grande detalhe" que passa despercebido. "São fachadas espelhadas, ou seja, o edifício não tem uma frente e um detrás, são equivalentes. Acho uma ideia genial porque normalmente não é assim", destaca. Ana Costa sintetiza que "a grande força do edifício" desenhado pelo avô é o facto de afirmar que "a importância do rio é tão grande como a da cidade".

elsa.rodrigues@vdigital.pt

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