Dois anos de transportes públicos gratuitos em Cascais trouxeram mais 10% de passageiros

Projeto da Câmara de Cascais tem um custo anual que ronda os 12 milhões de euros, mas que é suportado na totalidade pelas receitas de parqueamento da autarquia e do Imposto Único de Circulação. Frota de autocarros foi totalmente renovada com 98 novos veículos.

Foi em 2020 que a Câmara de Cascais implementou no concelho o modelo de transportes públicos gratuitos, "um serviço único em Portugal e um dos poucos da Europa", como refere ao DN Miguel Pinto Luz, vice-presidente da autarquia. Dois anos depois, e apesar da pandemia, registou-se um aumento de 10% na utilização dos transportes públicos em Cascais.

"Não foi um caminho fácil. Como fomos nós os pioneiros tivemos de ser nós a desenhar todo o projeto de raiz, que começou com a criação da Autoridade de Transportes, que tutela toda esta área. Depois criámos o projeto MobiCascais, que consegue juntar todos os modos de mobilidade, desde rodovia, às bicicletas, ao parqueamento, às trotinetas. Em seguida, foi necessário pensar num sistema que permitisse que todas estas formas de mobilidade falassem entre si e lançámos o primeiro passe, o precursor do passe metropolitano, que permitia a utilização destas múltiplas facetas em termos de mobilidade. Finalmente, criámos uma app que permite aos cidadãos de Cascais acederem a tudo isto", lembra Miguel Pinto Luz. "O balanço é que foi um percurso difícil, porque éramos pioneiros, mas é um balanço extremamente positivo".

Contas feitas, desde a implementação da gratuitidade, os transportes públicos de Cascais receberam 12 milhões de passageiros, o que representa um aumento de 10%, sendo que cada utilizador poupou 720 euros neste período ao não ter de comprar o passe Navegante Municipal. De acordo com contas da Câmara de Cascais, se cada um dos 31 618 portadores do Cartão Viver Cascais que circularam nos autocarros municipais em 2021 tiver poupado este valor estamos a falar de um valor global de 22 764 960 euros. "Isto é apreciável, quer dizer que as pessoas estão a mudar os seus hábitos, estão a deixar o seu carro individual e a optar pelo transporte público", sublinha o vice-presidente da autarquia cascalense.

O custo desta medida para a Câmara de Cascais ronda os 12 milhões de euros anuais, mas, explica Miguel Pinto Luz, "o sistema de mobilidade é integralmente pago com duas fontes de receita".

"A primeira fonte de receita é o parqueamento nos parques de estacionamento do município. Cada pessoa que estaciona o seu carro em Cascais ou utiliza um dos parques subterrâneos em Cascais, essa receita é canalizada automaticamente para a manutenção de todo o sistema de mobilidade do concelho. A segunda fonte é o Imposto Único de Circulação, que incide sobre quem tem um transporte individual. Isto é quase uma forma de economia circular, quem utiliza o transporte individual tem de ajudar a financiar o transporte coletivo", enumera o autarca, sublinhando que "o município consegue desta forma a sustentabilidade total do modelo em termos económico-financeiros porque cria um modelo virtuoso de incentivos para a utilização de transportes públicos porque está a penalizar, de alguma forma, a utilização do transporte individual".

Contrato de confiança com os cidadãos

Esta aposta nos transportes públicos trouxe também uma renovação total da frota de autocarros, com a compra de 98 veículos novos - 79 autocarros standard, 17 minibus e dois autocarros movidos a hidrogénio. "É uma frota nova, zero quilómetros, equipada com os mais elevados padrões de eficiência energética. Todos os veículos contemplam lugares para passageiros de mobilidade reduzida, dispõem de conectividade gratuita à internet através de wi-fi, encontram-se equipados com sistemas de informação e de entretenimento a bordo, têm uma televisão corporativa para as pessoas poderem aceder a conteúdos do município e têm videovigilância para garantir a segurança", declara Miguel Pinto Luz. "Esta frota está a operar há nove meses, com cerca de 44 linhas municipais, ou seja, com o dobro dos quilómetros produzidos com a frota anterior. Duplicámos a oferta em relação àquilo que existia antes de gerirmos a mobilidade em Cascais. Hoje temos mais de sete milhões de quilómetros produzidos por ano por toda esta nova frota".

A mobilidade é um dos pilares do conceito de Smart City implementado por Cascais e Miguel Pinto Luz garante a autarquia não vai ficar por aqui nesta filosofia. "O grande avanço depois da mobilidade, depois de tudo aquilo que temos no território - iluminação inteligente, sensores nos nossos jardins, videovigilância - é como é que nós integramos toda esta informação para oferecermos serviços cada vez mais customizados a cada um dos cidadãos. Essa é a grande visão de futuro, e é para aí que queremos caminhar, o sermos o primeiro município a assinar um contrato de confiança com os cidadãos".

ana.meireles@dn.pt

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