Coração e comunicação

Chegou ao fim o projeto que durante um mês contou as histórias de quem deixou as grandes cidades e foi viver para o interior.

Hoje não precisamos de subir a uma serra, nem cruzar uma miríade de estradas municipais. Não vamos ao encontro de uma pastora em Casais de Folgosinho, nem conhecer os Herdeiros do Moinho a Penamacor. Ou ao centro geodésico do país, em Vila de Rei. Na última peça impressa do projeto #UmOutroPaís, fazemos uma reflexão sobre esta aventura e o nosso lugar de conversa é uma sala de aula na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), onde esteve o coração deste projeto. Escrevemos coração porque este é um projeto de muito fôlego para quem trabalha nesta sala de forma inteira e voluntária.

Foi nesta sala, durante uma aula de Jorge Souto, professor na ESCS, que pela primeira vez surgiu a ideia de usar numa reportagem um conceito muito familiar ao mundo da ficção e entretenimento. O conceito de transmedia é já uma forma de comunicar vídeojogos e sagas de entretenimento, como o mundo da banda desenhada. No nosso país, contudo, existem poucos projetos na área da comunicação social que possam carregar esse título.

O professor tinha noção disso. Este conceito, no plano teórico, é relativamente simples, mas para um produto informativo enfrenta algumas resistências. Diversas vezes tivemos de explicar a nossa ideia: à sombra do castelo de Marvão, em Seia, no coração da Serra da Estrela, ou à volta de uma mesa, em Serpa.

A narrativa transmedia é frequentemente aplicada na ficção e muitas vezes esse era o exemplo dado aos entrevistados para explicar o projeto. O nosso #UmOutroPaís é como uma daquelas sagas em que vão aparecendo super heróis. Frequentemente nestas epopeias os super-heróis vão desfilando na narrativa e cada um vai ajudando a contar uma história. Quem conhece este tipo de universo sabe que cada um destes personagens tem história própria e relevante.

A ideia do nosso projeto era criar uma história maior, um universo. Colocar no centro da discussão um tema relevante para a nossa sociedade através de vários super-heróis a contar a sua história. Há muitos meses que contamos na comunicação social muitas histórias relevantes: de doença, dor e sofrimento. Se, num ano de pandemia, todos precisamos de saber o que vai acontecendo à nossa volta, também é verdade que precisamos de continuar a viver.

O desafio partiu do professor, o mesmo da sala de aula onde começa esta história: "E se contássemos histórias de quem foi viver para o interior" para lançar um diálogo sobre coesão territorial, mas pela positiva. Começámos então a contar uma história, muitas vezes contada, poucas vezes na primeira pessoa. Fomos construindo uma narrativa, de coragem, resiliência, resistência, alegria, tristeza e muita sinceridade. Lançámo-nos ao terreno à procura dessas histórias. Trinta histórias de pessoas que fizeram a escolha inversa à maioria dos nossos concidadãos.

Os primeiros resultados do Censos de 2021 são relevadores da desertificação do interior, da perda de habitantes do nosso país e de quão premente é relançarmos esta discussão. Acrescentando valor a cada uma das peças deste puzzle demográfico, estas histórias contribuem para a discussão do momento: dois terços da nossa população vive amontoada em um terço do território, porquê?

Encontrámos muitas vivências em sentido contrário ao que consideramos normal. Com as histórias recolhidas precisávamos de as saber contar. Voltámos aos corações da nossa sala de aulas. Sabíamos que a nossa história tinha de ser contada na internet e redes sociais, ou seja, onde estão as pessoas.

Começou então um trabalho com um grupo de recém-licenciados da ESCS, a quem o professor lançou um repto: vamos ajudar a fazer o que ainda não está feito. A missão foi pensar em dividir cada uma das histórias para que o público pudesse aceder a cada uma delas nas várias plataformas. Persistentemente, com entusiasmo e dedicação, o Duarte Costa Lopes, o Diogo Nicolau, a Patrícia Silva, o Tiago Coelho e o Tiago Matos trabalharam dia (e noites) para que os conteúdos fossem coerentes e distintos. Durante todos os dias de julho, cada entrevista teve uma edição dedicada. Os vídeos publicados no sítio de internet do JN, texto e fotografia aqui no DN e o som diariamente na TSF. Conteúdos distintos ocuparam os feeds do Instagram do JN e o Facebook do DN. Outros, contando outras partes de cada história, foram editados e cuidadosamente publicados pelas redes do #UmOutroPaís.

Todos os dias, cada fragmento de vida dos nossos heróis no interior do país foi contado e contribuiu mais um bocadinho para que a nossa narrativa, sobre coesão e desertificação, fizesse sentido. Um exercício de coordenação extraordinário entre os meios envolvidos e os frutos desta equipa de jovens que se lançam agora no mercado de trabalho.

Mas se a ideia foi deixar-nos todos a refletir sobre o país, a forma como o fizemos, através do transmedia, pretende demonstrar que os meios de comunicação social podem ser relevantes para nós enquanto sociedade, ao suscitar questões que dizem respeito a todos, ao invés de apenas reagirem aos acontecimentos. Este universo transmedia sobre vidas vividas no interior aqui fica, para ser descoberto e percorrido nos vários meios por quem chega agora ou depois. Aqui, nesta sala, com estes corações, juntamente com os relatos dos muitos heróis que vão do Alvão até Alcoutim, mostrámos que existe #UmOutroPaís à nossa espera.

reinaldo.t.rodrigues@globalimagens.pt

Veja o vídeo em jn.pt/jndireto

Ouça o podcast em tsf.pt

Veja todas as histórias em dn.pt

#UmOutroPaís

Projeto coproduzido com Escola Superior de Comunicação Social/IPL

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