Todo-o-terreno dos ares. Ponte de Sor vai ser a casa do primeiro avião português

O ATL-100 deverá levantar voo em 2023 e promete ser um motor de transformação no Alto Alentejo. Empresa responsável pela aeronava estima a criação de "600 a 800" empregos só em Ponte de Sor.

Roberto Dores
O projeto envolve mais de 30 empresas, além de universidades portuguesas e estrangeiras.© DR

O nome comercial da empresa que vai produzir a primeira aeronave totalmente construída em Portugal ainda está por definir, mas o futuro presidente do conselho de administração já garante ao DN que o fabrico do ATL-100, que irá ter linha produção no Aeródromo de Ponte de Sor, vai mudar a face do concelho do Alto Alentejo. E os sinais já começaram com a maior procura de casas. O primeiro protótipo deverá levantar voo em 2023.

"Comparo este projeto ao da Embraer, que nasceu em São José dos Campos, no Brasil, em 1970. Na altura, a cidade tinha cerca de 150 mil habitantes e hoje tem 720 mil. Desenvolveu-se muito em torno da aeronáutica", sublinha Eduardo Bonini, admitindo que o exemplo brasileiro com 51 anos possa repetir-se à escala alentejana à boleia da "criação das competências necessárias em Portugal, com parceiros e fornecedores para construção dessa aeronave de ponta a ponta."

Os promotores do primeiro programa aeronáutico completo de Portugal - que envolve o CEiiA (Centro de Engenharia e Desenvolvimento) e a empresa brasileira DESAER - avançam já que o projeto vai criar cerca de 1200 postos de trabalho contemplando os três distritos alentejanos. Ponte de Sor vai receber a maioria - entre 600 a 800 pessoas - enquanto algumas centenas de empregos serão distribuídos entre Beja e Évora na construção de vários equipamentos. Por agora estão ser dados os primeiros passos no centro de engenharia que o programa já está a desenvolver no Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia, em Évora.

"Vamos ser uma empresa integradora de segmentos produzidos por parceiros locais, juntando as partes e integrando-as no mesmo avião para depois ser vendido", esclarece Bonini, ressalvando que este programa "não poderá ser feito de um dia para o outro".

Assume as necessidades do mercado mundial e a importância de ganhar terreno junto da concorrência que aí virá, mas pede calma. Explica que, afinal, está em causa um projeto que envolve mais de 30 empresas, ao lado de universidades portuguesas e estrangeiras, apontando a um investimento que ascende aos 164 milhões de euros. "Estamos a falar de tecnologia de ponta. Vamos precisar de muita formação de técnicos e engenheiros", diz.

O investimento vai ser financiado por fundos comunitários, através do programa operacional regional Alentejo 2020, embora o grosso da fatia financeira deva ser assegurada pela DESAER e CEiiA, contando ainda com uma segunda linha de apoio que pretende atrair investidores internacionais.

"Avião transforma-se em duas ou três horas"

E que mercados se perfilam como prioritários neste negócio? Eduardo Bonini fala de uma aeronave de grande flexibilidade com um alcance de 1600 quilómetros. "Permite carga até 2,5 toneladas e transforma-se num avião regional, com capacidade para 19 passageiros. O avião transforma-se em duas ou três horas. Foi algo que foi deixado para trás nos últimos anos, mas que tem procura", reforça, acrescentando que há vários mercados potenciais para colocar o avião português.

O avião poderá transportar até 2,5 toneladas de carga.© DR

Dá o exemplo da própria Força Aérea brasileira que em breve vai precisar de substituir as aeronaves que em tempos comprou à Embraer. Com efeito as "bandeirantes" - como são designadas - estão descontinuadas e à beira de atingirem o tempo útil de vida. "Estamos a falar de uns cem aviões que terão de ser substituídos", avança ainda Bonini, alertando para a capacidade que as aeronaves conferem em países africanos ou no Médio Oriente. "Vão permitir realizar operações muito grandes. Vejamos o que acontece nos dias de hoje com a pandemia, em que é preciso fazer chegar vacinas e ventiladores a locais extremos", exemplifica o responsável, para quem o ATL-100 junta a capacidade de carga a possibilidade de poder operar mesmo em pistas não pavimentadas.

Sinais de crescimento

O presidente da Câmara de Ponte de Sor, Hugo Hilário, defende que a garantia da instalação da linha de produção no concelho "premeia" o trabalho que ao longo dos anos tem sido desenvolvido no aeródromo. Justifica que a infraestrutura aeronáutica do Norte Alentejo apresenta-se hoje como "diferenciadora e preparada para receber um programa de tão elevada escala". O autarca assegura que o aeródromo municipal tem tudo à espera do ATL-100. Do sistema de segurança, ao sistema operativo, passando pela estratégia que está definida.

"Dizemos que isso foi um fator diferenciador, porque este investimento é algo especial", acrescenta, enquanto admite que o desafio atinge tal grandeza no concelho que "supera a capacidade da região em fornecer os recursos humanos necessários ao investimento". Hugo Hilário já antevê a instalação em Ponte e Sor de mão-de-obra oriunda de outras partes do país - e de além fronteiras - concordando que "este fenómeno vai ter um impacto positivo no Alentejo", insiste o autarca, dando o exemplo dos técnicos formados no Brasil que estão à espera que a pandemia dê tréguas para viajarem rumo a Ponte de Sor.

Ainda assim, nos últimos três anos este concelho já conheceu sinais de crescimento, sobretudo a partir do momento em que o projeto aeronáutico ganhou asas mais sólidas. "Em três anos houve o dobro das licenças de construção de habitação e de reabilitação de imóveis comparando com os 15 anos anteriores", exemplifica o presidente do município, atestando como também se registou um crescimento ao nível do comércio, restauração e alojamento local.

Resultado: Ponte de Sor foi dos concelhos do Interior que mais reduziram a taxa e desemprego, baixando de 25% para apenas 5%. "A evolução aeronáutica abre-nos horizontes de crescimento para o futuro", resume Hugo Hilário.