A única salina ativa no Tejo mantém viva a tradição local que vem desde o século XIII

Diretamente do rio Tejo nasce o sal puro que há muitos anos faz parte da cultura de Alcochete. Respeitar a história e preservação ambiental são os ideais da Fundação das Salinas do Samouco - um espaço feito de aprendizagem.

"Qualquer pessoa nascida ou criada em Alcochete tinha uma ligação ao sal. Deixar morrer esta atividade seria deixar morrer as raízes de um povo". Estas são as palavras que resumem a missão da Fundação para a Proteção e Gestão Ambiental das Salinas do Samouco, que preserva o ecossistema e a produção artesanal de sal local há mais de 20 anos.

As Salinas do Samouco são um espaço rico em história: os primeiros registos de atividade salineira na região surgiram no século XIII e durante muitos anos este foi o principal produtor de sal de todo o país. Entretanto muito mudou, mas o método artesanal de produzir sal mantém-se, dando origem a um produto natural único sem aditivos nem lavagens.

Das 56 salinas que outrora faziam parte dos 360 hectares do complexo do Samouco (freguesia de Alcochete) e empregavam a maior parte da população do concelho, hoje resta uma que produz as 200 toneladas de sal marinho e a flor de sal que dali saem.

Segundo André Batista - educador ambiental e responsável pela fundação - esta é atualmente a "única salina ativa no rio Tejo", sendo o processo de extração de sal feito maioritariamente nos meses de calor, entre junho e setembro.

André garante que aqui se produz um tipo de sal puro e de elevada qualidade dado que é "feito à mão, numa área protegida e cujo dinheiro reverte para a conservação da natureza". "Já que produzimos, decidimos produzir em qualidade e temos um produto apetecível", sublinha. Além disso, "aqui promove-se a saúde com um produto natural, cria-se emprego e mantém-se a identidade da região. Todas estas componentes juntas fazem com que as Salinas do Samouco sejam um atrativo muito especial", admite.

André Batista não esconde as dificuldades passadas nos últimos anos para manter as salinas em funcionamento e os perigos que podem surgir com um possível novo aeroporto na região (a Base Aérea 6, que deveria receber o novo aeroporto do Montijo, é vizinha das salinas) . Ainda assim, garante que manter as salinas centenárias localizadas numa Zona de Proteção Especial do Estuário do Tejo é uma prioridade para a sustentabilidade local.

Gerações dedicadas à salicultura

Nos dias de hoje apenas cinco salineiros trabalham ali. Com apenas 20 anos e natural do Montijo, Rafael Oliveira há um ano que já faz parte da "família". Sem receios, para ele esta é acima de tudo "uma nova experiência" e admite que aprecia trabalhar ao ar livre e no seu próprio ritmo.

O alcochetano Luís Almeida, de 41 anos, dedica-se a recolher sal perto da Ponte Vasco da Gama há cerca de cinco anos. "Trabalhamos num ambiente bastante calmo e livre. Fazemos de tudo um pouco e todos os dias aprendemos algo diferente", diz.

Já João Marques - mais conhecido como João Matias - é o cérebro por trás de todo o processo de extração de sal. Aos 63 anos, perde conta às histórias que tem para contar sobre as salinas, dado que esta era uma tradição de família e começou a trabalhar ali ainda em criança como "aguadeiro".

Todos os salineiros demonstram apreço no que fazem, no entanto, André reconhece que é difícil encontrar pessoas que queiram trabalhar nesta atividade. "São muitas horas ao sol e além de ser um trabalho duro, é muito minucioso e exige paciência", reconhece. Aliás, a equipa tem um trabalho multifacetado que não se resume apenas à recolha de sal - os salineiros são também responsáveis pela manutenção de todo o espaço.

Esta fundação recebe perto de mil visitantes por mês e orgulha-se de ter conseguido "trazer a população local de volta à salina". A maior parte dos visitantes são alunos de várias escolas do país no âmbito da educação ambiental. "Tornamos toda a informação científica deste local numa linguagem simples para as escolas. Achamos fundamental transmitir aos mais jovens a importância destes locais para a conservação da natureza e para a biodiversidade das aves", reconhece André.

Nas Salinas do Samouco podem fazer-se visitas livres ou com um guia, divididas por três trilhos (de 5 e 6 quilómetros) em que se podem avistar mais de 20 espécies de aves, entre elas flamingos, garças, guinchos... e não só. A visita permite também observar 12 burros mirandeses (espécie em extinção) que caminham livremente pelo espaço.

Além de ser um local histórico e de aprendizagem, quem visita as Salinas do Samouco pode ainda usufruir do espaço para lazer ou até para praticar desporto - especialmente corrida ou ciclismo. A Fundação para a Proteção e Gestão Ambiental das Salinas do Samouco está aberta todos os dias da semana entre as 08h00 e as 17h00, com visitas até cinco euros por pessoa que proporcionam "três horas de informação específica e técnica" sobre as salinas, as aves e o ecossistema.

ines.dias@dn.pt

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