Os Repair Café são uma ideia trazida  dos Países Baixos por Rafael Caledo e Lindsey Wuisan, "Lá existem

Lisboa

Repair Café Lisboa: contra a cultura do descartável

Cria comunidades para incentivar a economia circular e com isso dar nova vida a objetos danificados. Estes são os principais objetivos do Repair Café Lisboa. A ideia foi trazida dos Países Baixos e já se realizou em vários locais do país. A penúltima edição em Lisboa decorreu no Mercado do Forno de Tijolo.

Sem local nem data fixa, o Repair Café é um espaço de partilha de conhecimentos onde voluntários ajudam e ensinam clientes a reparar vários objetos: de micro-ondas a desumidificadores ou até mesmo calças. Marta Brazão, 28 anos, faz parte da organização e recebe os visitantes no evento, que na maioria rondam os 30 a 40 anos e dos quais muitos são estrangeiros.

Como é o caso de Ângela de Pinto, de 38 anos, italiana, que em conjunto com o marido português, Luís Domingos, de 39 anos e o filho de ambos, Matias, de 9 meses são visitantes assíduos. Acompanham o Repair Café desde que inaugurou em Lisboa. "Cheguei a vir cá grávida reparar umas cortinas", conta Ângela com um sorriso. "Já trouxemos uma máquina de café, uma ficha tripla e uma batedeira que conseguimos reparar e ainda utilizamos", recorda Luís.

O casal admite que o conceito é "interessante economicamente" mas é também uma forma de diminuir a produção de novos objetos. "Somos adeptos do conceito de economia circular, e defensores do meio ambiente e, assim, estamos a sê-lo".

A ideia foi trazida dos Países Baixos por Rafael Calado e Lindsey Wuisan, holandesa encarregue da direção da Circular Economy Portugal. "Lá existem muitos Repair Cafés. Fez sentido trazer o conceito para Portugal", diz Lindsey.

O perfil dos reparadores voluntários é muito díspar. "Há quem saiba fazer de tudo desde costura a eletrónica", garante Rafael Calado, "há também quem ganhe competências enquanto visitante e se torne parte da equipa".

O projeto, que está agora na 32ª edição, começou com a comunidade do FabLab - laboratório de fabricação que pretende democratizar o acesso a invenções pessoais e colaborativas. "Criámos um Repair Café pequeno com voluntários convidados por nós. Resultou e no mês seguinte fomos convidados para ir ao LX Factory, em Alcântara, dinamizar uma ação. O conceito começou a crescer e mais tarde surgiu também no Porto", conta Rafael Calado, responsável pela coordenação dos programas do FabLab.

A organização do Repair Café Lisboa tenta realizar o evento uma vez por mês. No dia em que o visitámos, um sábado, em final de fevereiro, a meio da tarde, as mesas estavam cheias e os reparadores com as mãos ocupadas. "Hoje temos aqui catorze voluntários", explicou o coordenador do Repair Café Lisboa.

O trabalho de reparação é voluntário, gratuito, quem paga os consertos nos equipamentos são os próprios donos. "Se tivermos as peças para a reparação podemos dá-las. Caso contrário, são as pessoas que as compram ou voltam numa próxima edição com o que faltou. De alguma maneira também queremos promover o comércio local", esclarece o coordenador.

Quer o número dos visitantes como dos voluntários é limitado em cada evento - e em ambos os casos necessitam inscrever-se através de formulários publicados na página de facebook do evento.

Incentivar comunidades locais

"Há várias cidades que querem ter o Repair Café, mas é preciso haver uma comunidade. Isto começa pequeno e vai crescendo. Os voluntários, por exemplo, têm de ser locais", explica Rafael Calado.

Outra dos objetivos do Repair Café é incentivar os visitantes a repararem os próprios objetos - com o apoio dos voluntários. Foi isso que Marlene Hosszu, alemã de 35 anos, fez na primeira ida ao Repair Café. O objetivo foi arranjar uma torradeira. "Um dos fios da resistência estava cortado", explica enquanto Luís Dinis, de 56 anos, voluntário, tentava ligar um dos fios. "Este é realmente o objetivo desta iniciativa. Não basta pedir para os outros fazerem, o interessante está em tentarmos perder o medo de reparar", defende Luís. "Não está a ser fácil, mas a Marlene está a aprender ".


Nessa edição houve quem participasse como voluntário pela primeira vez. Caso de Catarina Ribeiro e Hugo Martins, ambos de 20 anos e estudantes de engenharia. "No Repair Café todos ganham. Quem repara aprende sempre algo com quem trás objetos para reparar", diz Hugo. A próxima edição ainda não tem data e será anunciada na página de facebook do Repair Café Lisboa.

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