Modernização da Costa da Caparica deixa de fora problemas mais sérios

A Rua dos Pescadores, na Costa da Caparica (Almada), vai ser requalificada, numa obra orçada em 466 mil euros, mas de fora ficam problemas mais sérios, prioritários para a cidade, diz autarca.

A principal artéria comercial e turística da Costa da Caparica vai "mudar de cara". A Rua dos Pescadores chega a receber um milhão de visitantes aos fins de semana na época alta e agora este espaço público vai ser devolvido às pessoas, o comércio vai recuar os expositores e as esplanadas, vão ser plantadas árvores e colocados bancos, com a intenção de restituir a identidade a esta rua histórica. Mas problemas prioritários ficaram fora da equação.

Embora o presidente da Junta de Freguesia da Costa da Caparica veja grandes vantagens nesta empreitada, principalmente do ponto de vista emblemático, considera que seria prioritário requalificar a Estrada Florestal, que liga a cidade à Fonte da Telha, bem como prolongar, como já prometido desde 2015, o Metro de superfície do Sul do Tejo (MTS) até à povoação.

"A Estrada Florestal nunca foi intervencionada e deve ser uma prioridade, porque afeta a mobilidade e o tecido comercial a sul da Costa. Além disso, é urgente requalificá-la, por questões de segurança; apresenta sérios riscos para os condutores e transeuntes", disse José Ricardo Martins. No entanto, reconhece que a empreitada tem de ser muito bem pensada, sobretudo face às alterações climáticas e às metas de descarbonização. "Como está em tão mau estado, chega a funcionar como um tampão", admite. Mas sabe que o avanço do mar é inevitável, bem como o aumento do nível médio das águas e, nesse sentido, apela a uma solução que obrigue os cidadãos a mudarem os seus hábitos. "Esse vai ser o grande desafio, mas para isso é preciso que haja vontade política", manifestou.

Outra das prioridades, prossegue, é o prolongamento do metro de superfície, "mas não com o traçado previsto, que rasgaria a arriba, passando depois pelo centro da cidade". Na sua opinião, deveria terminar na Via Rápida da Costa, junto ao cemitério. Aí, continua, "poderia, talvez, haver um interface rodoviário para fazer a ligação às outras localidades. Além das vantagens económicas, uma vez que se estaria a rentabilizar a obra do MTS, há motivos ecológicos: é elétrico, é um transporte amigo do ambiente". E com a criação do passe Navegante, mais razões há para apostar neste meio de transporte, sustentou.

"O Navegante, a seguir ao SNS e à escola pública, foi a maior medida desde o 25 de Abril, em vários aspetos. Ganhou-se mobilidade, as famílias poupam, é um incentivo ao uso de transportes públicos, contribui para as metas de descarbonização e é um grande motor da coesão social. Os idosos já não estão reféns em casa. E idosos mais felizes gastam menos na farmácia. O novo passe teve esse condão", sublinhou.

Voltando à Rua dos Pescadores, as obras de reabilitação anunciadas recentemente pela presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, consistem na substituição do pavimento existente por lajetas de betão, alternando entre o preto e o branco, mais resistente e de fácil manutenção. Além da colocação de nova iluminação, de mobiliário urbano e a plantação de árvores, criando zonas de sombra ao longo da rua, o projeto contempla também a criação de um pórtico em memória da Coroa, que ali existiu outrora, aludindo aos tempos áureos da Costa da Caparica. O objetivo, segundo a autarca, é dotar esta artéria emblemática do concelho de uma identidade, e dar-lhe "a dignidade e importância que ela tem".

A obra, que terá a duração de 120 dias, a ser realizada de forma faseada, não irá interferir com a época balnear (de 15 de junho a 15 de setembro). Ainda em fase de concurso público, embora possa começar antes do verão, o presidente da Junta considera pouco provável que isso aconteça. "Só deve arrancar depois do período balnear", reconheceu, por sua vez, José Ricardo Martins.

A Rua dos Pescadores é, desde 1700, a artéria principal da Costa da Caparica. Ali se juntavam aos sábados os pescadores para dividir "o quinhão das artes". Posteriormente, além de ser um polo de agregação económico - a maioria do comércio está ali concentrado, teve também entre 1960-1980 o "condão" de dividir o estrato social da Costa a Norte e a Sul, aquando do crescimento da zona, contextualizou o presidente da junta, que lamenta o estado de abandono a que esta rua foi votada. Além disso, "sempre foi a ligação entre o interior da cidade e o mar. A maioria que ali chega através dos transportes públicos desagua na Praça da Liberdade, no centro, e sobe a Rua dos Pescadores para alcançar a frente urbana de praias".

De acordo com o projeto, será criado um cordão de cinco metros entre as duas margens da rua, para que as pessoas possam andar à vontade, sem necessidade de se desviarem de barreiras arquitetónicas. Para o efeito, vai haver uma reorganização do espaço público, uniformizando o comércio, tanto no que diz respeito à volumetria como às cores: preto e branco. As esplanadas vão manter-se, mas os "operadores" apenas poderão optar por três modelos, nenhum deles de plástico. Irá privilegiar-se o metal e a verga, à imagem das esplanadas mais antigas. Por outro lado, vai ser proibido qualquer publicidade, à exceção da identificação da casa/comerciante. Os guarda-ventos serão de vidro, para conferir profundidade, e os abarracados também têm os dias contados. Quanto às lojas, vai ser permitido manterem um toldo com 180 cm, e os expositores não poderão ultrapassar aquele limite.

A Junta de Freguesia, juntamente com a Câmara de Almada, comprometeu-se a custear as esplanadas. "A Junta está disposta a abdicar de receitas para mitigar essa despesa", garantiu José Ricardo Martins. Comerciantes e moradores manifestaram-se agradados com o projeto de requalificação, percebem que será uma mais-valia. A grande incógnita é a data de arranque das obras. É consensual que gostariam que só avançassem após o verão.

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