Zelensky fecha a porta a diálogo com Putin, mas não com Moscovo

No terreno as tropas russas continuam a recuar, com os ucranianos a dizer que "o inimigo está desmoralizado". EUA prometem mais 625 milhões de dólares de ajuda militar.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, assinou ontem um decreto onde torna oficial que qualquer diálogo com Vladimir Putin é "impossível". Contudo, não fecha a porta a eventuais negociações com Moscovo, desde que haja um novo líder russo no Kremlin. No terreno de guerra, as forças ucranianas continuam a recuperar o controlo, com os próprios mapas russos a mostrar rápidos recuos no leste e no sul da Ucrânia.

O desejo de não negociar parece contudo ser mútuo. "Ou vamos esperar que o atual presidente mude de posição ou esperar que o próximo presidente mude a sua posição no interesse do povo ucraniano", disse ontem o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, lembrando que são precisos "dois lados para negociar".

O decreto de Zelensky surge depois de o presidente ter feito comentários nesse sentido na sexta-feira, após Putin ter proclamado a anexação de quatro regiões ucranianas que não controla totalmente - depois de realizar referendos que a comunidade internacional apelidou de "falsos" e cujo resultado não reconhece.

Putin tinha previsto promulgar ontem as leis que que permitem a anexação de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, aprovadas ao início do dia pelo Parlamento russo. Isto apesar dos recuos das tropas russas, especialmente em Donetsk e Kherson, e de as fronteiras do território anexado não serem ainda claras. Durante o briefing diário no Ministério da Defesa russo, não se falou em recuos, mas os mapas apresentados mostravam que as tropas de Moscovo terão deixado Dudchany, na margem ocidental do Dnipro (em Kherson), e toda a margem oriental do Oskil, em Donetsk.

O Estado-maior ucraniano não quer avançar com mais pormenores, limitando-se a dizer que "o inimigo está desmoralizado" e que à medida que vai abandonando as suas posições, vai destruindo munições e pontes. A questão é saber até onde irão recuar os russos, com responsáveis ocidentais citados pelo britânico The Guardian a alegar que a Rússia está em risco de perder localidades estratégicas para manter o controlo sobre a cidade de Kherson e eventualmente a Crimeia.

A Rússia espera poder travar os ucranianos com mais pessoal. O ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, alegou que mais de 200 mil reservistas já foram mobilizados desde que o presidente Vladimir Putin anunciou o seu plano. O responsável explicou que estes só serão enviados para a Ucrânia depois de terminarem o treino, apesar de haver relatos que muitos já estariam no terreno. Mas os serviços de informação do Ministério da Defesa britânicos traçam um cenário negro. "Os desafios de acomodar, treinar, equipar e destacar o pessoal mobilizado e recrutado são significativos. As deficiências dentro do sistema administrativo e logístico russo vão continuar a minar estes esforços", indicaram no seu balanço diário.

Mais ajuda dos EUA

O presidente norte-americano, Joe Biden, anunciou entretanto num telefonema com Zelensky que vai garantir um novo pacote de ajuda militar à Ucrânia, no valor de 625 milhões de dólares, reiterando que o apoio dos EUA vai durar "o tempo que for necessário". A ajuda de Washington inclui os desejados lançadores móveis HIMARS, de longo alcance, assim como munições e veículos blindados.

Por seu lado, a líder dos Irmãos de Itália, Giorgia Meloni, que venceu as eleições italianas e espera vir a ser a primeira mulher à frente do governo deste país, falou também ao telefone com Zelensky. Segundo um comunicado do seu partido, Meloni prometeu o seu "apoio total" à Ucrânia e "reforçou o seu compromisso para com todos os esforços diplomáticos que sejam úteis para acabar o conflito". Zelensky convidou-a a visitar Kiev e agradeceu as armas que Itália tem enviado - uma decisão do governo que Meloni apoiou, mesmo estando na oposição, ao contrário dos seus aliados do centro-direita.

susana.f.salvador@dn.pt

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