Xiomara, de primeira-dama a primeira mulher presidente das Honduras?

Com mais de 50% dos votos contados, mulher de Manuel Zelaya tinha 20 pontos percentuais de avanço sobre o adversário.

Em 2009 Xiomara Castro pôs de lado o tradicional papel de primeira-dama e foi para as ruas liderar os protestos contra o golpe de Estado que tinha derrubado o marido, Manuel Zelaya. Já era popular, mas depois ganhou força política e agora, à segunda tentativa, prepara-se para se tornar na primeira mulher presidente das Honduras. Com mais de 50% dos votos contados, tinha ontem uma vantagem de 20 pontos percentuais em relação ao principal adversário, o presidente da câmara de Tegucigalpa, Nasry Asfura, do Partido Nacional (direita, no poder).

Apesar de o Conselho Nacional Eleitoral ter pedido aos candidatos para não declararem a vitória prematuramente, ambos o fizeram. "Obrigada povo! Transformámos 12 anos de lágrimas e dor em alegria. O sacrifício dos nossos mártires não foi em vão. Iniciaremos uma era de prosperidade, de solidariedade através do diálogo com todos os setores, sem discriminação nem sectarismo", escreveu Xiomara Castro, de 62 anos, no Twitter, após serem conhecidos os primeiros resultados. Já Asfura apelou à "paciência e tranquilidade" até que se conte "o último voto", depois de o Partido Nacional ter publicado uma mensagem no Twitter a dizer "ganhámos" com uma foto sua.

Caso se confirme a vitória da candidata do Partido Liberdade e Refundação (Libre), que diz ser "socialista democrática", isso significa o regresso da esquerda ao poder. Entre outras coisas defende a legalização do aborto para casos de violação e a legalização dos casamentos homossexuais. Prometeu ainda trabalhar com a ONU para reforçar a luta contra a corrupção no país afetado pela violência dos grupos criminosos e do narcotráfico e pelos efeitos de dois furacões que devastaram as Honduras em 2020, a juntar à pandemia de covid-19. Estima-se que 59% dos 10 milhões de habitantes vivem na pobreza e a taxa de desemprego é de 10,9%, levando muitos hondurenhos a tentar imigrar para os EUA.

Zelaya, que foi eleito como liberal em 2005 mas acabou por virar cada vez mais à esquerda durante o mandato, foi afastado num golpe de Estado apoiado pela direita quando se preparava para fazer um referendo para convocar uma assembleia constituinte e reescrever a Constituição, que entre outras coisas iria permitir a reeleição presidencial - que acabaria por ser autorizada anos mais tarde. A 28 de junho de 2009, o exército das Honduras seguiu ordens do Supremo Tribunal (que tinha decidido contra o referendo) e derrubou Zelaya, enviando-o para o exílio na Costa Rica.

Xiomara Castro, que casou com Zelaya quando tinha 17 anos (têm quatro filhos) e esteve ao seu lado ao longo de 30 anos de carreira política, refugiou-se inicialmente na embaixada dos EUA, mas acabaria por sair para as ruas para liderar os protestos contra o golpe. O marido regressou do exílio em maio de 2011, num acordo com o governo (ainda passaram três meses refugiados na embaixada do Brasil), tendo já então criado as bases para a fundação do Libre, que queria acabar com o bipartidarismo nas Honduras.

Xiomara foi candidata às presidenciais de 2013, tendo optado por ser candidata a vice de Salvador Nasralla nas de 2017. Ambas as eleições foram ganhas por Juan Orlando Hernández, o atual presidente, sendo que houve denúncias de fraude no segundo escrutínio e quase 30 pessoas morreram nos protestos que se seguiram. Entretanto, o presidente tem sido alvo de denúncias de corrupção e envolvimento com o narcotráfico - o seu irmão foi condenado nos EUA e os traficantes que ajudou a extraditar acusam-no de também estar envolvido. Hernández tem negado as acusações, mas até Asfura optou por manter a distância em relação ao presidente durante a campanha.

susana.f.salvador@dn.pt

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