Vitória do PP em Madrid leva Direita portuguesa a festejar, mas realidade é diferente

Para o eurodeputado do PSD e vice-presidente do Partido Popular Europeu Paulo Rangel o PP ganhou "porque houve discurso claro de oposição e alternativa". E este triunfo pode ser "um embalo" para Carlos Moedas em Lisboa.

A vitória estrondosa da candidata do Partido Popular, Isabel Díaz Ayuso, em Madrid fez eco em Portugal. Várias figuras da direita deitaram foguetes, mas há quem apanhe as canas com cuidado. Paulo Rangel, eurodeputado do PSD e vice -presidente do Partido Popular Europeu, a família política do PP espanhol, sublinha que o resultado da presidente do governo regional madrileno se deveu "a um discurso claro de oposição e de alternativa" ao governo de esquerda nacional.

Um discurso que, diz, não teve contemplações para com o governo de Pedro Sánchez, nem para os partidos que o compõem, a coligação PSOE (socialistas) e Unidas Podemos. E para quem afirma que Isabel Díaz Ayuso fez toda a campanha com um discurso à direita, Paulo Rangel lembra que o PP sempre teve "um discurso mais à direita do que o PSD". Mas sublinha que esta eleição em Madrid colocou o PP, que duplicou os votos (65 lugares em 136 assentos parlamentares, quando há dois anos elegeu 30) ficou menos dependente do Vox (extrema-direita) e só precisa da abstenção deste partido para governar.

"Isto mostra que não se tratou de um discurso à esquerda ou à direita, mas de uma clara oposição e uma alternativa ao poder", reforça, até porque "os cidadãos de centro e centro direita votaram no PP" com 80% de participação eleitoral.

Numa extrapolação para Portugal, Paulo Rangel recorda que neste momento PSD e PS estão em antagonismo, sobretudo depois de António Costa ter comparado Rui Rio a um "cata-vento". Em jeito de recado ao líder social-democrata para a estratégia futura diz: "Não se pode estender a mão a quem não quer dar a mão e até a morde".

A vitória do PP em Madrid, admite ainda, "pode ser um embalo para a candidatura de Carlos Moedas" à Câmara de Lisboa.

Vasco Rato, militante do PSD e antigo presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) não reconhece, para já, na mensagem de Carlos Moedas em Lisboa, a capacidade de "roubar" o poder ao PS e a Fernando Medina, porque entende que o candidato da coligação PSD/CDS tinha de ser mais assertivo e claro na mensagem alternativa. "Por alguma razão a campanha está como está e a sondagem foi o que foi", diz, numa alusão a uma sondagem que dava uma vitória esmagadora a Fernando Medina sobre Moedas.

Tal como Paulo Rangel, Vasco Rato atribuiu a vitória esmagadora do PP à "estratégia simples de uma candidata que arriscou e teve um discurso diferenciado da coligação que está no governo, e conquistou o centro político a partir da direita".

Vasco Rato rasga a ideia de um posicionamento do PSD ao "centro", como tem defendido Rui Rio. "Não há uma ideologia de centro. Metam na cabeça que há nesse espaço eleitores moderados, que não são radicais, e que escolhem as propostas que parecem responder aos seus problemas". É assim, afirma, que António Costa mesmo com um discurso claro à esquerda tem conquistado o centro.

A subida do Chega em Portugal explica-se na ótica deste especialista em relações internacionais porque o partido de André Ventura "tem a capacidade de expressar algumas das preocupações do eleitorado português". O que se refletiu nos 15% que Ventura teve nas recentes eleições presidenciais.

"Significa que o PSD e o CDS têm a obrigação de procurar saber o que preocupa as pessoas e propor políticas, umas que se aproximam às dos Chega outras que divergem completamente", diz e sublinha: "O PSD e a direita têm também a obrigação de perceber o que leva as pessoas a optarem por soluções mais radicais". Dá o exemplo da cabeça de lista da coligação PSD/CDS à Câmara da Amadora, Suzana Garcia, que foi muito criticada pelas suas posições. "A senhora está a falar para um eleitorado com preocupações legitimas e não a propor coisas iguais ao Chega".

O embaixador António Martins da Cruz regressa à vitória de Isabel Díaz Ayuso para dizer que os resultados "são dificilmente replicáveis noutras regiões espanholas", como a Catalunha, o País Basco ou Navarra. Recorda que a comunidade de Madrid é governada há muito tempo pela direita, mas com este resultado, admite, "pode ser que se dê um clique a nível nacional". Martins da Cruz considera também que "é difícil tirar exemplo do que aconteceu em Madrid para a realidade nacional" porque "as situações são diferentes e a realidade política também", com "o PS enraizado em Portugal, coisa que não acontece com o PSOE em Espanha".

paulasa@dn.pt

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