Um voo para reunir familiares e amigos ucranianos na terra incógnita 

Depois de uma primeira experiência com um autocarro, a paróquia do Campo Grande, em Lisboa, organizou uma operação aérea para recolher refugiados com laços em Portugal.

Cento e setenta e duas pessoas, oito cães, quatro gatos e um porquinho da Índia. É a relação dos passageiros, organização excluída, da missão humanitária que chegou na terça-feira a Lisboa oriunda de Varsóvia, depois de quatro pessoas não terem conseguido passar a fronteira a tempo de embarcar no voo. De crianças de colo a idosos, de cidadãos do oeste a naturais do leste controlado pelos russos, de tudo um pouco se encontrou numa viagem antecedida com um "Slava Ukraini" (glória à Ucrânia) da hospedeira de bordo e descolou com aplausos e sons de maravilhamento das crianças.

O voo é o segundo capítulo que nasceu da iniciativa de dois jovens, Olena e José Maria, que queriam fretar um autocarro para transportar ucranianos com família em Portugal, mas não tinham fundos suficientes. Bateram à porta da paróquia do Campo Grande, em Lisboa, e o padre Hugo Gonçalves deu a bênção: um autocarro foi repleto de ajuda humanitária e regressou com 49 ucranianos. O sucesso da missão, a angariação de fundos e o resultado de um questionário online deram ânimo para que se repetisse a dose, e desta vez em dois autocarros. Até que surgiu a possibilidade de fretar um avião da companhia ucraniana SkyUp, o que só foi possível graças ao apoio da Fundação Santander.

O objetivo deste voo foi ligar refugiados às famílias ou a amigos, pelo que a lista de passageiros já estava a ser construída ao longo dos dias anteriores. E a finalidade da paróquia, explica Cláudia Lourenço, voluntária e secretária da paróquia, é "ser uma base para estas famílias", que vão um pouco para todo o país. "Vamos acompanhá-los naquilo que for preciso." A missão humanitária não acabou no aeroporto de Figo Maduro. O avião regressou à capital polaca carregado com nove toneladas de ajuda, não só da paróquia, mas também de outras recolhas realizadas em Portugal.

Um voo com estas características traz sempre imprevistos. Na véspera cinco pessoas desistiram. As voluntárias tiveram de ir comprar caixas para transporte de cães. Mais tarde, foram buscar mãe e filha, que iam passar a noite no aeroporto, para dormirem no hotel.

À hora marcada, no átrio do aeroporto Chopin, os refugiados encontraram-se com as voluntárias ucranianas Oksana - largou o emprego relacionado com vistos dourados porque não conseguia trabalhar com russos - e Lilia, para conferir nomes e documentos, antes de seguirem para o check-in. Chegada na véspera de Lviv, a sua cidade, Natalya aguarda na fila. Vai ter com a mãe, que vive há 22 anos em Lisboa. É engenheira de qualidade para uma empresa britânica que incentivou as mulheres a procurarem alojamento na Polónia. "Mas eu decidi ir para Portugal porque posso viver com a minha mãe", conta. Natalya diz que haverá à sua volta quem tenha vivido dias mais amargos até chegar ao aeroporto.

Em Donetsk, ocupada pelos russos, Oleg escapou-se de servir na linha da frente contra os próprios ucranianos. "Pensar que ele poderia morrer por nada", exclama a namorada.

É o caso do jovem casal Katarina e Oleg. Saíram de Donetsk, ocupado pelas forças russas, e empreenderam uma viagem em várias etapas, que passou por Moscovo e Kalininegrado. "Aí foi uma experiência dura, porque os guardas fronteiriços russos fizeram muitas perguntas e tentaram provocar-nos. Perguntavam coisas como "Tiveram oito anos para se mudarem, porquê agora?". Passámos umas cinco horas em que não nos deixaram sair, enquanto faziam um interrogatório interminável como se fôssemos seus cidadãos. Mas na realidade somos cidadãos da Ucrânia e foi por isso que nos fizeram isto", conta Katarina.

Questionada sobre a hipótese de ter passaporte russo para facilitar a saída, foi taxativa: "O passaporte é obviamente ucraniano. Promoveram a ideia da cidadania russa em Donetsk, mas não era obrigatório. Sou uma cidadã ucraniana, não quero passaporte russo."

Carne para canhão

No seu inglês escorreito, Katarina fala por Oleg, o namorado que deixou por concluir um mestrado em cibersegurança. "[Os russos] Queriam arrastá-lo para a guerra. Estão agora a mobilizar todos os homens dos 18 aos 55 anos e levam-nos para a linha da frente, são carne para canhão. Pessoas que nunca pegaram numa arma. As fontes russas dizem que estão a defender a fronteira, mas na realidade estão a matar civis, estudantes e trabalhadores", denuncia. Não foi fácil Oleg sair. "Claro que foi ilegal, mas ainda assim há pessoas que conseguem tirá-los daquele território. Pensar que ele poderia morrer por nada, contra os próprios compatriotas", diz, emocionada. O casal vai viver para o Algarve. "Os meus pais estão prontos a hospedar-nos. Queremos arranjar um trabalho e sermos úteis para a sociedade portuguesa", conclui.

Yevgenia, de 53 anos, também se decidiu por Portugal por uma ideia altruísta: "Eu sei que a Polónia está cheia de ucranianos e se tivermos a hipótese de irmos para outro país, vamos." Após três dias de guerra, esta professora, o marido, a filha - entretanto foi viver para a Alemanha - e o cão saíram de Kiev e rumaram a Varsóvia, para casa de amigos. "Entretanto um amigo convidou-nos para ir para Portugal, para Vila do Conde. Nunca visitámos Portugal, é terra incognita para nós, mas sempre quisemos visitar. É um gesto muito importante para nós e estamos gratos por toda esta ajuda", diz.

Professora de russo para estrangeiros e de inglês no ensino primário, achou "muito estranho" quando ouviu alguém dizer que na Ucrânia há um problema com a língua russa - uma das alegações do Kremlin para a tomada de Donetsk e Lugansk por elementos pró-russos. "Trabalhei sempre sem quaisquer problemas. É claro que ninguém queria os "salvadores" russos", afirma a docente que tem o russo como língua nativa porque a mãe era russa. "Putin fez algo muito importante para a língua e cultura ucranianas, muitas pessoas não querem falar russo agora. Agora é a linguagem dos agressores, dos assassinos, em especial depois daqueles dias terríveis em Bucha", comenta.

Voluntários e heróis

Yevgenia deixa ainda uma palavra para os voluntários. "Dizem que somos heróis, mas que heróis? Eles sim, são uns heróis. São os nossos melhores amigos."

Há outros voluntários que se cruzam por minutos no aeroporto, como o português Carlos, que transportou uma família de Cracóvia para Varsóvia. Ou também, vindo da mesma cidade, o russo Ilya. A viver há vários anos na Polónia, viu-se como o resto da população, a ajudar quem precisa. "Recebo mensagens de desconhecidos, nunca sei o que é, se é para ir buscar alguém à fronteira ou para passarem uns dias em minha casa", diz.

Desta vez coube-lhe em sorte cuidar dos gatos de um ucraniano que partiu para Portugal mas teve de deixar os felinos pelo caminho. Agora surgiu a oportunidade de reunir Mischka e Bruce ao dono. Uma viagem em várias etapas que começou em Mykolaiv e termina no Algarve. Quanto a Ilya, só se faz à estrada para mais de três horas de regresso após reiteradas garantias de que os bichanos não ficariam esquecidos no aeroporto. À saída de Figo Maduro, um ucraniano fala ao telemóvel, agitado, enquanto fuma. É Vitaly, o dono dos gatos.

cesar.avo@dn.pt

O DN viajou a convite da Fundação Santander

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