Um novo show com a marca de Trump, agora em tribunal

Ex-presidente apresenta-se perante um juiz em Manhattan, onde vai ser indiciado. Um momento inédito para o candidato republicano e para a história do país.
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Cinquenta anos depois da primeira investigação relacionada com Donald Trump, este vai pela primeira vez ouvir um juiz transmitir-lhe de viva voz a primeira acusação, ou antes, acusações que um grande júri concordou em levar adiante, no seguimento de um processo dirigido pelo procurador Alvin Bragg.

Em 1973, investigadores federais encontraram provas de que a empresa de imobiliário Trump Management, gerido por Donald e o seu pai Fred, sistematicamente discriminava os negros e hispânicos. Os procuradores apresentaram queixa e a litigação terminou com um acordo dois anos depois. Assim tem sido a vida do empresário nova-iorquino. Por exemplo, já presidente, em 2018, um tribunal determinou um acordo judicial com uma indemnização de 25 milhões de dólares aos estudantes de uma fraudulenta universidade Trump.

Estreia-se como acusado aos 76 anos devido a um caso que diz ser politicamente motivado e que está relacionado com o pagamento de 130 mil dólares à estrela de filmes pornográficos Stormy Daniels para comprar o seu silêncio, uma operação que envolveu o então advogado pessoal e facilitador Michael Cohen. Falsificação de registos comerciais e violação da lei do financiamento das campanhas eleitorais serão os delitos em questão.

Como os seus próximos de pronto comentaram, Trump vai tentar fazer do caso um novo show, no qual o pré-candidato republicano se apresenta como vítima dos democratas. Começou por lançar acusações ao procurador e também ao juiz, no que foi secundado pelos advogados no que respeita à seriedade do processo. "Este caso nem sequer é juridicamente sólido. Na verdade, é uma piada. E não sobreviverá a uma contestação no tribunal", disse um dos advogados, Joe Tacopina, à ABC. "Um juiz imparcial provavelmente reconhecerá que há algo errado", acrescentou outro advogado, James Trusty, à Fox.

Em Nova Iorque, 36 mil agentes das forças de segurança estão preparados para o pior. Perante o anúncio de uma manifestação com a presença da congressista Marjorie Taylor Greene, o autarca, Eric Adams, lembrou que esta é "conhecida por difundir desinformação e mensagens de ódio" e pediu contenção. "Enquanto estiverem na cidade, comportem-se."

Entretanto, noutro dos dois processos sob supervisão do procurador especial Jack Smith, o Departamento de Justiça e o FBI reuniram novas provas que apontam para uma possível obstrução do ex-presidente na investigação relacionada com os documentos secretos encontrados na sua residência em Mar-a-Lago, Florida.

Segundo conta o The Washington Post, as provas foram reunidas em emails e mensagens de texto de um ex-assistente de Trump. Com base em depoimentos de testemunhas, imagens de câmaras de segurança e outras provas, que após a entrega da intimação para devolver os documentos - presidente e vice-presidente têm de deixar todos os papéis e objetos, ofertas incluídas, na Casa Branca, à guarda do Arquivo Nacional - foram removidas caixas e Trump examinou o conteúdo de algumas.

Posteriormente foram entregues documentos - 15 caixas de material, com 184 documentos classificados -, mas não todos. Assim o comprovou a busca do FBI em agosto do ano passado, que recolheu cerca de 13 mil documentos, 103 dos quais classificados, e destes 18 top secret. Segundo os testemunhos de quem trabalhava com Trump, este acreditava que os objetos e documentos eram sua pertença e não queria devolvê-los. A moldura penal do crime de obstrução à justiça federal é de cinco anos de prisão, mas não é incomum a acumulação de várias sanções penais, pelo que um condenado pode receber uma pena de até 20 anos.

Assim que soube que iria ser acusado, Trump afirmou na rede Truth Social que o juiz o "odeia". Que se saiba Juan Merchan e o ex-presidente não se cruzaram, mas recentemente apareceram dois casos do universo Trump.

No primeiro, duas empresas foram culpadas de 17 acusações de fraude fiscal e falsificação de registos comerciais e condenadas à coima máxima de 1,6 milhões de dólares. O ex-chefe financeiro da Trump Organization, Allen Weisselberg, confessou-se culpado e serviu como testemunha enquanto cumpre cinco meses de prisão - Trump afirma que este foi forçado à confissão pelo juiz. No outro caso, o ex-assessor Steve Bannon enfrenta acusações de fraude e branqueamento relacionados com uma angariação de fundos para construir um muro ao longo da fronteira com o México.

O mais novo de seis irmãos, Juan Manuel Merchan nasceu em Bogotá, na Colômbia. A família emigrou para Queens, em Nova Iorque, quando tinha seis anos. Desde muito cedo teve de ajudar a família com ocupações como lavar pratos num restaurante. Trabalhou como auditor para uma empresa imobiliária enquanto fez estudos superiores, primeiro em gestão, depois em direito.

Em 1994 começou a carreira no gabinete do procurador distrital, seguiu para a procuradoria estadual até 2006, quando passou a juiz no tribunal de família. Está desde 2009 no Supremo Tribunal de Nova Iorque, no qual preside a julgamentos.

Em 2012, foi o juiz de um caso que agitou Nova Iorque: foi desmantelado um bordel de luxo gerido por uma mulher que levava uma vida dupla entre o Upper East Side, onde faturou milhões no negócio que a levou a ser acusada por promoção de prostituição, e a vida modesta dos subúrbios. O juiz fixou a fiança num milhão de dólares a Anna Gristina, a Soccer Mom Madam, mas acabou por aceitar o acordo de seis meses na prisão e cinco anos em liberdade condicional.

cesar.avo@dn.pt

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