O presidente dos EUA, Donald Trump, pode juntar mais um recorde ao currículo: o de mais longo discurso do Estado da União. Foram 107 minutos, ou seja uma hora e 48 minutos, quase mais 20 minutos do que Bill Clinton em 2000. Mas as únicas novidades foram as sete medalhas e distinções que atribuiu a militares e até a um jogador de hóquei no gelo, já que passou a maior parte do tempo a repetir os autoelogios à política económica (apesar de os dados não serem tão bons como diz) ou ao combate à imigração ilegal e a atacar os democratas (que também expressaram o desagrado com o presidente). “Quando falei pela última vez nesta câmara, há 12 meses, tinha acabado de herdar uma nação em crise, com uma economia estagnada, inflação em níveis recorde, fronteiras totalmente abertas, recrutamento horrível para as Forças Armadas e a polícia, criminalidade desenfreada no país e guerras e caos por todo o mundo. Mas esta noite, apenas um ano depois, posso dizer com dignidade e orgulho que alcançámos uma transformação sem precedentes e uma reviravolta histórica. É, de facto, uma reviravolta histórica”, disse Trump, falando numa nova “era dourada” quando os EUA se preparam para celebrar os 250 anos da Declaração de Independência.A governadora da Virginia, Abigail Spanberger, responsável pela resposta democrata, questionou contudo se os americanos sentem essa “era dourada” de Trump. "O presidente está a trabalhar para tornar a vida mais acessível para si e para a sua família? O presidente está a trabalhar para manter os americanos em segurança, tanto em casa como no estrangeiro?“, para depois responder: “Todos sabemos que a resposta é não.” A sua mensagem focou-se na questão da affordability, a capacidade de comprar algo (que falta a muitos americanos), sabendo que esse é o grande tema para as eleições intercalares de novembro. Não foi a única voz democrata a ouvir-se, com o congressista Al Green a ser expulso depois de mostrar um cartaz onde se lia “os negros não são macacos”, numa referência a um vídeo partilhado por Trump com uma montagem com o ex-presidente Barack Obama e a mulher, Michelle. Outros congressistas boicotaram o evento, enquanto várias mulheres usaram cartões na lapela a exigir a divulgação total dos ficheiros do falecido pedófilo Jeffrey Epstein. E depois houve Ilhan Omar. A congressista de origem somali gritou para Trump: “Você matou americanos”, referindo-se às duas vítimas do ICE (Serviços de Imigração e Fiscalização Aduaneira) em Minneapolis. Isto depois de o presidente ter dito que os democratas deviam ter “vergonha” porque não se levantaram quando ele disse que o dever principal do governo era “proteger os cidadãos americanos, não os imigrantes ilegais”. Trump chamou ainda “malucos” aos democratas. Também se ouviram risos quando o presidente alegou que tinha acabado com oito guerras em dez meses e que está a trabalhar “arduamente” para acabar com a nona - referindo-se à da Ucrânia. No quarto aniversário da invasão russa, não perdeu contudo muito tempo com o assunto, referindo apenas que 25 mil soldados estão a morrer todos os meses num conflito que nunca teria começado se ele fosse presidente e que todas as armas que envia para a Ucrânia são pagas “totalmente” pelos parceiros da NATO.No total, Trump passou cerca de 20 minutos a falar de política externa, mas grande parte foi a recontar a operação militar que levou à queda do líder venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro. O Irão, onde a aposta é na diplomacia mas persiste a ameaça de um novo ataque depois do de junho do ano passado, foi falado por cerca de três minutos. Não houve uma palavra sobre a China ou sobre a Europa. .Democratas acusam Departamento de Justiça de ocultar dados que ligam Trump a alegados abusos de menores