Um Bundestag mais diverso e com Merkel a assistir da bancada

Sessão inaugural do Parlamento saído das eleições de 26 de setembro. É mais jovem, mais feminino e tem a primeira deputada negra, mas ainda não é um retrato do país.

Pela primeira vez em mais de 30 anos, Angela Merkel não estava entre os deputados na sessão inaugural do novo Bundestag, tendo que assistir aos trabalhos do Parlamento mais diverso de sempre a partir das galerias, ao lado do presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier. A agora chanceler interina não foi candidata nas eleições de 26 de setembro e ser relegada para as bancadas é só o primeiro sinal de que estão a chegar ao fim os seus 16 anos no poder.

Lá em baixo, no hemiciclo, o espaço dedicado ao governo continua vazio, à espera do culminar das negociações entre os sociais-democratas do SPD, os Verdes e os liberais do FDP, que irão abrir a porta a um executivo liderado por Olaf Scholz (até agora vice-chanceler). Até haver esse acordo, Merkel - cujo mandato acabou oficialmente quando o novo Parlamento tomou posse - continuará à frente do país. Apesar de não existirem oficialmente restrições ao seu poder, não é hábito os chanceleres interinos tomarem decisões radicais neste período.

O novo Bundestag tem um recorde de 736 lugares (é o segundo maior Parlamento do mundo, depois do chinês), tendo sido necessário acrescentar 27 desde a última legislatura - por causa do sistema alemão, o número de eleitos não é fixo. A maior parte dos deputados é já veterana, mas há também 279 rostos novos no hemiciclo. No final, este Parlamento é dos mais jovens em décadas (a média de idades é de 47,5 anos), sendo que há 47 membros com menos de 30 anos. A mais nova é Emilia Fester, dos Verdes, que tem 23 anos.

Este Bundestag é também o mais feminino desde 2013, com as mulheres a representarem 35% dos deputados. Mais uma vez são os Verdes que estão à frente neste aspeto, já que 59% dos seus 118 eleitos são do sexo feminino - incluindo as duas primeiras transexuais, Tessa Ganserer e Nyke Slawik. Na sessão inaugural, os deputados elegeram também uma mulher para suceder ao conservador Wolfgang Schäuble como líder do Bundestag: a social-democrata Bärbel Bas (com 576 votos a favor, 90 contra e 58 abstenções). É a terceira mulher no cargo desde 1949, algo que ela não considerou como um "sinal glorioso", defendendo maior representatividade. "Vejo a minha eleição como uma mudança nos tempos", disse no seu discurso inaugural.

Este é ainda o Parlamento alemão mais diverso de sempre em termos de origem dos seus deputados, sendo 11% dos representantes imigrantes ou filhos de imigrantes - 83 nasceram no estrangeiro ou têm pelo menos um dos pais nascido fora da Alemanha. É a maior fatia de sempre, mas ainda longe da percentagem de 27% que existem na sociedade alemã. Entre este grupo encontra-se Lamya Kaddor, filha de imigrantes sírios que dá cursos sobre o Islão e é autora do primeiro livro escolar alemão sobre o tema. Kaddor foi eleita nas listas dos Verdes, tal como Awet Tesfaiesus, que é a primeira deputada negra. Nascida na Eritreia, foi viver para a Alemanha quando tinha 10 anos, tornando-se advogada e defensora dos direitos dos migrantes e dos requerentes de asilo.

A sessão inaugural ficou marcada pelos protestos da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD). Em primeiro lugar por causa da covid-19: os deputados que não estejam vacinados, não tendo recuperado da doença ou não queiram fazer o teste (ou apresentar documentos que atestem qualquer destas condições) foram relegados para as galerias - foi o caso de 23 dos 82 da AfD. Outro problema foi com quem presidiu à sessão, Schäuble. As regras ditam que devia ter sido o deputado mais velho a fazê-lo, o que significaria Dino Alexander Gauland, que tem 80 anos. Uma grande maioria votou contra isso. O deputado da AfD disse no passado que o nazismo era o equivalente a "caca de pássaro" na história da Alemanha, sendo acusado de "minimizar deliberadamente" os crimes cometidos nesse período.

Chanceler ficará aquém do recorde?

As negociações para a coligação entre os sociais-democratas, os Verdes e os liberais continuam, com as três partes a querer um acordo até ao final de novembro, de forma a que Olaf Scholz seja eleito chanceler na semana de 6 de dezembro. A cumprir-se esse prazo, mais cedo do que se previa (a anterior coligação, que só envolveu dois partidos, demorou quase seis meses a negociar), Angela Merkel ficará privada, por dias, de bater o recorde de Helmut Kohl como a chanceler do pós-guerra que mais tempo esteve no poder: chega a essa marca a 17 de dezembro. A 10 de novembro, os negociadores devem entregar o próximo relatório e irá perceber-se quão perto se está ou não do acordo para a coligação semáforo.

susana.f.salvador@dn.pt

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