O Kremlin admitiu esta segunda-feira uma retirada da região de Kharkiv para "reagrupar as forças russas na Ucrânia, mas prometeu seguir com a ação iniciada a 24 de fevereiro. "A operação militar especial continua e vai continuar até os objetivos que foram inicialmente estabelecidos terem sido alcançados", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Isto numa altura em que Kiev afirma estar a recuperar ainda mais terreno, não só no Nordeste, mas também no Sul da Ucrânia..O presidente russo, Vladimir Putin, surgiu em público numa reunião sobre questões económicas, mantendo, contudo, o silêncio sobre o revés militar no Nordeste da Ucrânia. "A Rússia está a lidar com confiança com a pressão externa e a agressão financeira e tecnológica de alguns países", afirmou, alegando que "as táticas de Blitzkrieg económico, o ataque com o qual contavam, não funcionaram". Isto numa altura em que a própria televisão russa falou na "semana mais difícil até agora", com "tropas forçadas a deixar cidades que tinham libertado" - isto é, conquistado meses antes -, e algumas críticas nas redes sociais à liderança militar.."A Ucrânia virou a maré a seu favor, mas a atual contraofensiva não vai terminar a guerra", indicou no Twitter o Instituto para o Estudo da Guerra, um think tank dos EUA. "Os rápidos sucessos ucranianos têm implicações significativas para o desenho operacional geral da Rússia. A maioria das forças na Ucrânia está provavelmente a ser forçada a dar prioridade a ações defensivas de emergência", indicaram, por seu lado, os serviços de informação militares britânicos, acrescentando que "a já limitada confiança que as tropas destacadas têm na liderança militar sénior da Rússia provavelmente irá deteriorar-se ainda mais"..Depois de semanas em que se pensava que a contraofensiva ucraniana iria acontecer na região sul, em Kherson, Kiev surpreendeu ao recuperar território no Nordeste, na região de Kharkiv, apanhando os russos de surpresa. Depois de reconquistarem a cidade de Izyum no fim de semana, as forças ucranianas indicaram ter recuperado o controlo de mais 20 localidades em apenas 24 horas, chegando em algumas zonas à fronteira com a Rússia. Em certas áreas fala-se em cenários semelhantes à retirada russa de Bucha, onde as tropas de Moscovo são acusadas de ter feito um massacre..Em retaliação pelos avanços ucranianos, os russos voltaram a bombardear as infraestruturas de Kharkiv - os funcionários tinham já conseguido recuperar 80% do fornecimento elétrico. "O objetivo é privar as pessoas de luz e aquecimento", disse o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, nas redes sociais no domingo à noite, explicando que não foram atacados alvos militares. Apelidou os responsáveis de "terroristas"..Os avanços no Nordeste não significam recuos a Sul. Segundo as autoridades locais, foram reconquistados 500 quilómetros quadrados em duas semanas e mortos pelo menos 1800 militares russos. Um avanço rejeitado pelas autoridades pró-Moscovo da região. "Não se cedeu nem um metro, nem um centímetro, de território", alegou à televisão russa o número dois da administração de Kherson, Kirill Stremousov..susana.f.salvador@dn.pt